Cordel Espacial

por Jozef Mikulcik - Via Pixabay

Construí de papelão

Minha nave espacial

Pra voar por entre os astros

Do espaço sideral

.

Um foguete original

Com seus botões de tampinhas

E meu traje de astronauta

Um pijama de estrelinhas

.

Para esta aventura

Me preparei muito bem

Separei frutas pro lanche

Garrafa d´água também

.

A calculadora antiga

Virou o meu transmissor

Para me comunicar

Com o comando instrutor

.

A contagem regressiva

Começou no pensamento

3,2,1 e decolar!

Foi-se a nave me movimento

.

A vista era encantadora

Em meio ao céu estrelado

Que fiz usando a lanterna

E um escorredor furado

.

Fui navegando no espaço

Como num sonho encantado

Cheguei logo a um planeta

Um tanto desarrumado

.

Nem Mercúrio e nem Vênus

Brinquedos por todo canto

A bagunça em toda parte

Não era Marte portanto

.

Planeta desconhecido

Recebeu uma invasora:

– Depois arrume seu quarto!

Disse ela com a vassoura

.
Saí correndo dali

Para seguir o meu roteiro

Depois guiei minha nave

Rumo ao Planeta Banheiro

.

Pois lá tinha uma estação

Que precisei visitar

Deixei ali a encomenda

Para a descarga levar

.

Lavei muito bem as mãos

E deixei o tal planeta…

E assim segui rumo ao mundo

Dos livros e cadernetas

.

Muitas pastas nas estantes

Muitas histórias e discos

Ali explorei bastante

Não parecia haver riscos

.

Foi aí que um E.T.

De olhos muito aumentados

Veio logo me alertando:

– Tô trabalhando, cuidado.

.

E aquele E.T. barbado

Falou em seu dialeto

Com alguns outros E.Ts

No computador discreto

.

Talvez um clube secreto

Tipo interestelar

E de novo o E.T. falou

– Filho, eu vou trabalhar…

.

Para não atrapalhar

Eu segui na excursão

Não vi Júpter, mas Saturno

Deu pistas da direção

.

Nesse canto do universo

Qual um vórtice proibido

Ficava a cama que tinha

Campo de força embutido

.

Nela eu já dormi fugido

Nas noites de pesadelos

Ou quando fui perseguido

Por monstros cheios de pelos

.

Logo à frente, a prateleira

Com muitos anéis brilhantes

Serão anéis de saturno?

De poeira cintilante?

.

A invasora celeste

Com a arma vassoral

Apareceu por ali,

com seu tom habitual:

.

– Seu quarto é buraco negro!

Eita bagunça danada!

Se uma coisa se aproxima

No mesmo instante é tragada!

.

Eu parti em retirada

Sem ao menos avistar

Nem Urano, nem Netuno

Neste espaço singular

.

Mas cheguei a um lugar

E pousei o meu foguete

Sobre a fofa superfície

Felpuda como um tapete

.

Por ali investiguei

Se havia joia escondida

Mas só recolhi amostras

De restinhos de comida

.

Nenhuma rocha sequer

Consegui para a pesquisa

E segui na minha rota

Brincalhona e imprecisa

.

Sobrevoei a varanda

De onde avistei a lua

Ouvi uns seres lunares

Miando à noite na rua

.

Fui à área de serviço

Área restrita à presença

Lá revi a invasora

– Tô varrendo, dá licença?

.

No fim cheguei ao planeta

Que é o mundo dos sabores

Cheio de aromas diversos

Temperaturas e cores

.

A invasora voltou…

Na verdade era a Rainha

De todo aquele sistema

E da galáxia inteirinha!

.

Eu me rendi aos seus pés

E o foguete estacionei

Diante da Nave Mãe

Eu humilde me curvei

.

– Já está de noite, amanhã

Você toma o seu sorvete.

Ganhei um beijo na testa

E voltei pro meu foguete

.

Fui ao Planeta-meu-quarto

Seguindo a sua instrução

Arrumei minha bagunça

Dei por cumprida a missão!

Por Mariane Bigio

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Cordel da Gratidão

Gratidão é uma palavra
Que expressa um sentimento
Uma alegria que invade
Nos toma por um momento
Quando alguém nos faz o bem
Nos dá carinho ou alento
.
Gratidão não anda só
Gosta de retribuir
Nós sentimos e queremos
Fazer o outro sentir
Se nós estamos felizes
Queremos fazer sorrir
.
Gratidão é prima-irmã
Da bela e gentil bondade
Um trevo de quatro folhas
Que muda a realidade
Que é condutora da paz
Porta-voz da humildade
.
Já vi nascer em um muro
Em meio a tanta dureza
Do concreto, do cimento
Um ramo de natureza
Nesse mesmo muro eu li
Um verso de gentileza
.
Gratidão pode ser simples
Não precisa complicar
Podemos agradecer
Tudo que a vida nos dá
Mas pra isso precisamos
Nossa cuca transformar
.
Os óculos da gratidão
Todo mundo deve ter
Corrigem nossa visão
Nos fazendo perceber
Que em todo canto há presentes
Para a gente agradecer
.
Se a gente olha o almoço
Não vê nada especial
Mas os óculos nos mostram
Um banquete sem igual
Preparado com carinho
Com sabor sensacional
.
Nossa cama, sem os óculos
Não tem nada diferente
Mas ajuste o seu olhar
Enxergue com essa lente
O descanso revigora
E o sonho é filme envolvente!
.
Como é bom poder sonhar
E brincar com a fantasia
Agradeça ao acordar
Pois nasceu um novo dia
Tantas possibilidades
Diga obrigado e sorria…
.
O carinho, e o amor!
O brinquedo e a comida
O colchão, o travesseiro
Nossa canção preferida
Os amigos… a família!
A saúde… a nossa vida!
.
Obrigado, obrigada
Pelas flores no jardim
Pela chuva, o arco-íris
E a noite que chega enfim
Trazendo a lua, as estrelas
Disposta no céu sem fim
.
Agradeço pelos livros
E a escola que me ensina
Sou grato por ser criança
Por ser menino ou menina
Pela imaginação
Que me encanta e me fascina
.
Pelo cheiro de pipoca
E a fruta doce e gostosa
Mesmo sendo pequeninas
As coisas são grandiosas
Com os óculos da gratidão
A vida é maravilhosa
.
E se eu cair? Me chateio!
Mas agradeço o remédio
Só sei que bom viajar
Se eu já conheci o tédio
Agradeço a minha casa
Mesmo que se chame prédio
.
Agradecer nos faz bem
E nos traz satisfação
Agradeço cada letra
Da palavra gratidão
Os óculos que nos permitem
Enxergar com o coração!
.

Mariane Bigio, durante a Quarentena de 2020.

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A Dona Baratinha em Cordel

A DONA BARATINHA EM CORDEL
– por Mariane Bigio

Assim se conta a história
Da formosa Baratinha
Muito vaidosa levava
No cabelo uma fitinha
Sua casa era cheirosa
Arrumada e bem limpinha

Pois a dona Baratinha
Foi limpar o seu terreiro
Capinou todo o capim
Que o cobria por inteiro
E encontrou uma caixinha
Muito cheia de dinheiro!

A notícia bem ligeiro
Se espalhou pelo Sertão
Logo veio um pretendente
Conquistar seu coração
Era o Boi, muito faceiro
Chegou cantando a canção

O Boizinho quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Meu mugido é muito alto
E dura a noite inteirinha!

Mas a dona Baratinha
Achou o “muuu” estridente
E decidiu esperar
Por um novo pretendente
Foi quando veio o Jumento
Relinchando bem contente

O Jumento quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Eu relincho o tempo todo
Qual alarme ou campainha!

A Barata, coitadinha
Até teve dor de ouvido
Disse “não” ao tal Jumento
Que empacou enraivecido
Em seguida veio o Bode
Muito sério e bem vestido

O Bode quer se casar
Com a Dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
O meu berro é imponente
Acorda galo e galinha!

Enjoada e cansadinha
A Barata dispensou
O Bode que foi berrando
E que nunca mais voltou
Então veio o Carcará
Que na janela pousou

O Carcará quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Dou um grito assustador
De arrepiar a espinha!

A Barata qual rainha
Despediu-se impaciente
Da tal ave de rapina
Agressiva e saliente
Que deu espaço ao Preá
Chegando todo envolvente…

O Preá quer se casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Sou discreto e silencioso
Minha voz é bem fininha…

E a dona Baratinha
Finalmente amoleceu!
Deu sua mão ao Preá
E o noivado aconteceu
O casório foi marcado
Quando o dia amanheceu

E quando o sino bateu
O Preá tinha sumido
Que será que aconteceu?
Haveria desistido?
A Barata ficou triste
E chorou sobre o vestido

Um vexame acontecido
Coisa pior não há
As galinhas tinham feito
Um gostoso mungunzá
E quando foram comer
Lá dentro estava o Preá

Baratinha fez “buááá”
Choradeira inconsolável
O Preá se parecia
Muito quieto e amável
Mas era muito guloso
E teve um fim lamentável

Agiu muito irresponsável
Atacando a refeição
Que ali seria servida
Durante a recepção
Se atrapalhou e caiu
Se afogou no caldeirão

Pra acalmar o coração
Da noivinha entristecida
Cacarejou a Galinha
Sua amiga tão querida
“É melhor viver sozinha
Do que ser triste na vida!”

“Essa atitude atrevida
Do infame roedor
Já demonstra as intenções
Que tinha aquele senhor
Casava por interesse
Não casava por amor!”

Foi passando a sua dor
Pois nunca esteve sozinha
Feliz junto com amigos
E o dinheiro da caixinha?
Comprou fitas e mais fitas
Viva a dona Baratinha!

por Mari Bigio

Assista aqui o vídeo do Cordel Animado contando essa história!

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Hortência!

Compartilho com vocês o meu livro Hortência, história de uma menina com nome de flor que tinha uma plantinha de estimação! Esse livro foi distribuído gratuitamente em um projeto realizado junto à Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura da Cidade do Recife. Agora deixo aqui o PDF pra quem quiser ter acesso! As ilustrações lindas , todas em aquarela, são de Juliana Barreto!

livro_hortencia_baixa-2.pdf

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Festa à Fantasia – Cordel carnavalesco para crianças!

Lapa de Urso - Murilo Silva

Lapa de Urso – Murilo Silva

Eu adoro Carnaval
Uma festa de alegria
De confetes, serpentina
Que a todos nós contagia
Onde a gente se transforma
Quando veste a fantasia!

Na semana da folia
Mamãe me pegou na mão
E me levou para o baile
Uma festa no salão
O local bem enfeitado
Muito brilho pelo chão

De toda a decoração
Eu gostei foi das fitinhas
Que pendiam lá do teto
Cortinas coloridinhas
E as máscaras tão bonitas
Bem que podiam ser minhas!

Com a roupa de bolinhas
Fiz valer o meu ingresso
Minhas asas e as antenas
Brilhavam sem muito excesso
Vestida de Joaninha
No desfile fiz sucesso!

Cruzei com outros insetos
Uma abelha bem faceira
Uma linda borboleta
Pequenina e feiticeira
Ainda um grilo falante
Que pulou a tarde inteira!

Eu estava na fileira
Pra comprar refrigerante
Foi aí que eu avistei
Algo muito interessante
Um tubarão foi cercado
Por uma dupla intrigante

Os dois eram integrantes
Da mesma família, irmãos
Um era um Marinheiro
O outro era o Capitão
Os dois brincavam de pega
Com o menino-tubarão

Levei um belo encontrão
De um palhaço atrapalhado
Quantos anos você tem?
Perguntou-me envergonhado
Tenho 7… eu respondi
E correu desembestado!!!

Levei um susto danado
Quando ouvi uma risada
Daquelas assustadoras
Mas fiquei aliviada…
Quando vi uma bruxinha
Que chegava pela entrada

Um príncipe de mão dadas
Mas não era com a princesa
E sim com a sua avó
Que o mimava, com certeza!
Não quis salvar seu ninguém
Fez birra e muita brabeza

Pois num é que vossa alteza
Principezinho emburrado
Só ficou mais sorridente
Quando chegou do seu lado
Um tipo super-herói
Com uniforme encarnado

Um papangu mascarado
Um gato e até um cachorro
Uma boneca de pano
Dançou que rasgou o forro
O clube inteiro dançava
Quando alguém gritou: Socorro!

Não sei se fico ou se corro…
O rebuliço formado
Parecia até mentira
Todo mundo estatelado
Quando se brinca de estátua
Que todos ficam parados!

E quem havia gritado
Não ficou pra explicar
A música estava parada
Todos a se entreolhar
Até que a fada madrinha
Resolveu, foi perguntar

Depois de muito explicar
Um menininho chorava
Com todo mundo ao redor
Somente a sunga ele usava
Soluçando, dava dó
De tão triste que ele estava

Aos prantos ele explicava
“Eu vim de Múmia vestido
Estava todo enfaixado
Fui no desfile aplaudido
Quando a pontinha da faixa
Se enganchou por um descuido..

Eu lá, dançando iludido
Comecei rodopiar
Fui ficando descoberto
A roupa a desenrolar
Quando então eu percebi
E comecei a gritar!

Fiquei tonto de girar
E agora não tem mais graça
Não tem festa, nem comida
Nada que me satisfaça
Já não tenho fantasia
Acabou-se, que desgraça!

Foi aí que uma palhaça
Quis emprestar-lhe o nariz
O menino agradeceu
Mas fez que não, e não quis
Explicou que treinou muito
Só de múmia era feliz

Foi aí que eu pensei “xis”!
Resolvi essa questão
Fui correndo ao sanitário
Peguei rolos de montão
Foi-se o papel higiênico
Do banheiro do salão!

Ele abriu um sorrisão
Começamos a enrolar
Ficou uma múmia perfeita
Prontinha para assustar
Recomeçamos a festa
Com todo mundo a dançar

A festa foi terminar
Mas eu nem vi seu final
Foi lá pras tantas da noite
Umas 10 horas e tal
Fui pra casa cochilando
No caminho fui sonhando
Com a tarde especial

É que adoro Carnaval!
Uma festa de alegria
De confetes, serpentinas
Que a todos nós contagia
Onde a gente se transforma
Quando veste a fantasia!

[por Mariane Bigio]

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Casamento na Cozinha

Uma fome repentina
Me tomou de madrugada
Então eu fui à cozinha
Sonolenta e bem cansada
Pra comer, rapidamente
Inacreditavelmente
Lá me vi paralisada

Uma cena inusitada
Tomava todo o balcão
Um anúncio ao som do apito
Da panela de pressão
Dava início ao tal momento
Eis que era um casamento
Incrível celebração

Me escondi de supetão
Para não atrapalhar
O noivo, todo de branco
Esperava já no altar
Quando as taças, em coral
Soaram num tom cristal:
A noiva iria chegar!

Foi entrando a desfilar
Enquanto as frutas olhavam
Manteiga se derreteu
Legumes comemoravam
Vinagre e azeite juntinhos
Belo casal de padrinhos
Dos pombinhos se orgulhavam

– Eu vi quando namoravam,
Acompanhei desde cedo!
– Oh, não seja tão meloso!
O vinagre um tanto azedo
Repreendeu o azeite
Que suspirava em deleite
Romântico e sem segredo

Eu tava com um certo medo
De estar sonhando acordada
Mas era tudo tão mágico
Que me vi enfeitiçada
Dali não saí enfim
Assisti até o fim
A cerimônia encantada

A noiva estava arrumada
Com buquê de couve-flor
Com véu de papel toalha
O padre era um pegador
Daqueles de macarrão
Conduzindo a união
Com maestria e louvor

Foi aquele chororô
Com as alianças chegando
Feitas de anéis de cebola
E os noivos se declarando:
– Você dá tempero à vida!
– Te adoro minha querida!
E então foram se beijando!

Pegador finalizando
Declarou os dois casados
Foi chuva de arroz pra cima
Pra baixo e tudo que é lado
Casaram o Sal e a Pimenta
Coisa que a cabeça inventa
Em um sonho esfomeado!

por Mari Bigio – Janeiro 2020

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Os três irmãos – Um conto de Natal

Papai Noel - Por Murilo Silva

Papai Noel – Por Murilo Silva

Por Mariane Bigio

Era dezembro e os três irmãos estavam animados. Haviam sido alertados sobre a tradição de pendurar suas meias sob o parapeito da janela, e ainda sobre as cartinhas com os pedidos de presentes de natal, que deveriam ser escritas com antecedência, para que o Papai Noel trouxesse exatamente o que gostariam de receber naquele ano. Um ano que passara voando, e o mês, cheio de festas e confraternizações, pareceu curto para tantos preparativos. A véspera de Natal chegara, e os três se ocuparam entre afazeres na cozinha, brincadeiras, faxina na casa, brincadeiras, beliscos nos quitutes da ceia e mais brincadeiras. A casa era simples e os irmãos ajudavam a família com cada detalhe da festa que começaria a qualquer momento.
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Tudo foi perfeito, divertido, e a comida estava deliciosa! Depois da sobremesa, o mais velho lembrou-se das meias, caramba! Todas as minhas meias estão sujas, e mamãe não quer que eu fique sem sapatos enquanto a vovó estiver por perto! O irmão do meio também não havia separado meia alguma, tampouco a caçula havia guardado um meia cheirosa e limpa para receber o bom velhinho. Os três foram ao cesto de roupas sujas e retiraram suas meias usadas de lá. Antes que os pais percebessem, fizeram um pequeno varal logo abaixo da janela, com as três meias penduradas. Depois das cantigas e jogos, os três adormeceram num colchão entre os primos e primas, em um outro cômodo da casa. As meias estavam penduradas, mas eles não haviam escrito sequer bilhetes para sinalizar ao Papai Noel sobre seus desejos. E agora?
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A casa dormia enquanto a coruja piava do lado de fora. O trenó estacionou nos fundos da casa, e o velhinho limpou o solado das botas sujas de terra no capacho em frente à porta. Demorou-se um pouco, até que se voltou, apreensivo, cochichando ao seu duende assistente: esta é a casa dos três irmãos! Foram eles que não escreveram nada sobre o queriam ganhar de presente. Querem que o bom velhinho faça mágica para descobrir! O duende respondeu: mas não é isso mesmo que o senhor faz? E os dois riram juntos, aos sussurros, com medo de serem ouvidos. Ao passar pela porta da cozinha Papai Noel avistou as tais meias dos pequenos. No caminho depositou, próximo à árvore de natal, os pacotes destinados aos pais, primos, avós, tios e tias das crianças. Todos já estavam prontinhos no saco mágico do bom velhinho. Papai Noel coçou a barba e o Duende se aproximou das meias, até cheirá-las…. plah! Estão sujas! Que horror! Noel deu um risinho contido, de boca fechada, tinham que ser silenciosos para que ninguém acordasse. O Duende assistente sacudiu no ar a meia do irmão mais velho…. uma meia comprida, devia chegar até o joelho do menino. Estava suada, com um chulézinho discreto e salpicada de grama verde. Hummm… o Papai Noel corrigiu sua postura e pigarreou. Disse algumas palavras magicas. O duende tirou de dentro do saco um pacote redondo que deixou abaixo daquela primeira meia. A meia do irmão do meio estava mais fedorenta… o Duende olhou dentro dela e teve que prender o espirro: está cheia de areia branca, e bem fininha. Veja! Também tem um conchinha aqui dentro. Hummm, muito bom, disse Papai Noel. Falou novamente as palavras mágicas e um outro pacote estava prontinho, saído do grande saco vermelho. Este ficou abaixo da meia que estava no centro. A última meia era muito fofinha, cheia de desenhos coloridos, uma bainha de arco-íris, e era a menorzinha das três, parecia limpa, mas…. credo! Que fedor! Esta é a pior de todas, Noel! O velhinho prontamente respondeu: prova de que a menina é espoleta, corre e pula tanto quanto os irmãos! Ao balançar a meia o duende teve um susto: um pó brilhante saiu de lá de dentro… não é possível! Pó mágico na meia de uma criança humana? Calma, calma, isto é o que eles chamam de glíter, pequenino. Também é uma ótima pista, junto com os desenhos da meia, o arco-íris na bainha…. talvez um chulé de quem gosta de usar botas ou galochas para brincar…. hum… é isso! O velhinho disse outras palavras mágicas e o Duende precisou se esforçar para retirar o pacote grande e pesado de dentro do saco vermelho. Deixou-o bem abaixo da meia pequenina. Ufa! Terminamos por aqui! Disse o assistente. O Papai Noel e o Duende deixaram a casa satisfeitos, e dentro de poucas horas o dia amanheceu.
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As crianças deixaram o quarto esbaforidas e atropelaram os primos que tentavam encontrar seus presentes ao redor da árvore. Eles foram diretamente ao local das meias, e cada um pegou o presente que lhe estava designado. Ao abrir, os olhos dos três brilharam de satisfação! Viva! Isso! Eba! Era exatamente o que eu queria! O irmão mais velho ganhou uma belíssima bola de futebol, para jogar no campinho onde costumava sujar suas meias de grama verdinha. O irmão do meio se deleitou com o trator, pás e balde que ganhara para brincar na areia branca e fininha, da praia em que passeava no final da tarde, depois da escola. Às vezes tinha tanta pressa de brincar que pulava na praia de tênis e meia, e até gostava de catar conchinhas e guardar nas meias para colecionar depois. A irmã mais nova, a pequenina espoleta, vibrou com o seu unicórnio de madeira, crina cor de arco-íris e chifre salpicado de purpurina dourada! Vou cavalgar com minhas galochas, ihaaaa! Do lado de fora da casa o Duende se esgueirava entre os arbustos, assistindo à cena pela janela. Na sua prancheta desenhou uma carinha sorridente ao lado do endereço dos três irmãos e sumiu, logo depois, em meio a uma fumaça branca e pó mágico, pois precisava apresentar o “Relatório da Alegria” ao Papai Noel.

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Mariazinha e a Comadre Fulorzinha

Mariazinha e a Comadre Fulorzinha

CORDEL MARIAZINHA E A COMADRE FULORZINHA - ILUSTRAÇÃO: MURILO SILVA

CORDEL MARIAZINHA E A COMADRE FULORZINHA – ILUSTRAÇÃO: MURILO SILVA

Meu nome é Ana Maria
mas chamam Mariazinha
eu vou contar uma história
ouvi de uma tia minha
ela me disse que um dia
viu Comadre Fulorzinha!

Eu então lhe perguntei:
– Quem é essa Fulorzinha?
que eu saiba, minha tia
sua comadre é mainha!
Ela deu uma risada
disse: – Ô minha sobrinha!

– Essa comadre que eu falo
vive no meio da mata
protegendo os animais
punindo quem os maltrata
quem explora a natureza
de maneira tão ingrata!

– Ela tem cabelos longos
que vão além da cintura
é uma linda caboclinha
na mata se desfigura
só aparece de noite
tenebrosa criatura!

Ao escutar a história
eu senti enorme medo
a noite estava chegando
já não era mais tão cedo!
foi então que minha tia
me contou o seu segredo:

– Não se preocupe não!
ela não lhe fará mal
apenas nunca maltrate
nem planta, nem animal
se for andar na floresta
é bom levar um mingau!

– Mas tia, não tenho fome!
– Mas não é para comer,
querida Mariazinha!
você deve oferecer
o fumo, mel ou mingau
que ela vai agradecer…

– A Fulorzinha aprecia
sempre que é presenteada
e ajuda até quem se perde
dentro da mata fechada
ela pode ser bondosa
se não for contrariada!

Eu lembrei que muita gente
dessa nossa região
gosta de fazer queimada
pra colher a plantação
e perguntei a titia
o que aconteceria

se houvesse degradação
Ela disse muito firme:
– Se a natureza sofrer
a Comadre Fulorzinha
logo vai aparecer
sinal de sua presença

é o que eu vou te dizer…
– Ela gosta de fazer
trança em crina de cavalo!
faz um nó cego danado
impossível desmanchá-lo
se tentar tirar o nó
os dedos enchem de calo!

– Tem que ter muito cuidado
se um assobio ouvir
se for som muito longo
Fulorzinha está por vir
mas só precisa ter medo
se à natureza agredir

– Pois se alguém se aventurar
de caçar por diversão
levará uma cipoada
mais forte que cinturão
nem precisa procurar
pois jamais vai encontrar

d’onde veio o bofetão!
– Já entendi, minha tia!
já vem chegando a noitinha,
vou levar esse mingau
e seguir a minha linha
amanhã digo se vir
a Comadre Fulorzinha!

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A Iara e a preservação do rio

Sereia - Murilo Silva

Sereia – Murilo Silva

(por Mariane Bigio)

 

Encontrei uma mocinha

Que limpava com capricho

As margens de um grande Rio

Retirando todo o lixo

Que podia alcançar

Ela quis me confessar

Me contando num cochicho

 

Não conheço nem um bicho

Capaz de tão vil proeza

De sujar e degradar

Destruindo a Natureza

Só o homem faz este mal

Não percebe que ao final

É quem perde, com certeza!

 

Sua voz, uma beleza

Tão sonora e encantada

E as palavras que dissera

Me deixaram preocupada

Eu decidi ajudar

Pra que se possa espalhar

A mensagem que foi dada

 

A tal mocinha engajada

Sumiu como num piscar

Eu nem perguntei seu nome!

Vi no rio a mergulhar

Como um peixe que passeia

Uma Cauda de Sereia

E mal pude a acreditar

 

Era ela a acenar

nadando qual capivara

no rio Capibaribe

uma aparição tão rara

nos deixou esta lição

cuidem da preservação

Assim como a bela Iara!

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Associação dos Seres Folclóricos

o sapo - jota borges

o sapo – jota borges

Vou lhes contar uma coisa
Pra fazer queixo cair
Conheci seres fantásticos
Ninguém pode desmentir
Foi num sonho, tão profundo
Conto pra você ouvir:

.

Fiquei boba de aplaudir
Criaturas tão famosas
Que vieram me falar
Me dizendo, tão queixosas
Que as cantigas e parlendas
Nos dão visões enganosas
.

A primeira, toda prosa
A bela Sambalelê
Chegou de cabeça inteira
Imagine só você
Disse “eu não estou doente
Quem me encontra logo vê!”

.

Do sovaco, pode crer,
Um termômetro tirou
De fato não tinha febre
E ela assim continuou
Muito braba e indignada
E ainda completou:

.

“Não sei quem foi que inventou
Que preciso de palmada
E se estivesse doente
Devia ser castigada?
Só quero mesmo é dançar
Me esbaldar numa sambada!”

.

“Está certa e apoiada!”
Tocando seu violão
Pai Francisco entrou na roda
Dando respaldo à questão
Criticando o delegado
Que o levou para a prisão.

.

Não gostou Bumbalalão
Capitão que ele era
Dona Chica esbravejou:
“Vivemos em outra era!”
O gato do outro lado
Miando disse: “quem dera!”

.

Seu Rei estava uma fera
Ao ver todos revoltados
Prevendo a revolução
Dos tais seres encantados
Pois quem toma consciência
Questiona ao ser comandado…

.

O Sapo estava arretado:
“Vou processar o autor
Da minha biografia!
Sou um grande locutor
Minha imagem está bem suja
Mas lavo o pé, sim senhor!”

.

Decida e com furor
Falou bem forte a mocinha:
“Eu não sou interesseira
Prefiro ficar sozinha
Não escolho namorado
De maneira tão mesquinha!”

.

“E eu já disse, Oh Maninha!
Que não vou mais costurar”
A sapa falou tão séria…
“Eu também quero cantar
Se não, não tem casamento
Nem festa pra celebrar!”

.

Eu precisei explicar
Falei que nem professor
Que aqueles versinhos todos
Não são de um só escritor
Pois são de Domínio Público
O povo é que é seu autor…

.

Têm questionável teor
Ou conduta debochada
Mas isso é devido a época
Em que a canção foi forjada
Talvez como brincadeira
Possa ser modificada

.

Mas a história é contada
Através das tradições
As cantigas nos ensinam
E fazem demonstrações
Sobre os costumes de outrora
E assim nos deixam lições

.

Percebam que essas canções
Embalam os sonhos da gente
Fazem parte da Cultura
Da memória um expoente
Se a gente a não preservar
Se perdem completamente

.

Como fui bem eloquente
Os seres associados
Dispersaram-se em fumaça
Com os sorrisos estampados
Pois nos sonhos, os problemas
São todos solucionados

.

Ainda de olhos fechados
Me lembrei de uma canção
Vovó cantava de uma anjo
Que roubou seu coração…
E antes que eu despertasse
O anjo gritou: “roubei não!”

 

 

 

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