Heroínas e Heróis Nordestinos

Com licença minha gente
Permitam me apresentar
Eu me chamo Mari Bigio
Sobrenome de além-mar
Nasci pra contar histórias
Inventadas ou memórias
Da poesia popular


Quero logo perguntar
Você saber o que é Cordel?
É história em verso e rima
Num folheto de papel
Patrimônio Cultural
O Cordel é sem igual
Poema de Menestrel


Com as honras e laurel
Da nossa rica cultura
Tem força na oralidade
Potente Literatura
O Cordel é imponente
Apresenta, geralmente
Na capa a xilogravura


Um carimbo com gravura
Uma arte independente
A matriz é de madeira
E a tinta vem gentilmente
A beleza revelar
E assim poder estampar
Os folhetinhos, na frente!


E assim peço, humildemente
Licença, vou começar
Vou falar de alguns heróis
De heroínas vou lembrar
Sertanejos, nordestinos
Que meninas e meninos
Possam sempre se inspirar


Quero logo iniciar
Esse nosso Panteão
Lembrando de um homem santo
Peregrino do Sertão
Do povo um grande guerreiro
Foi Antônio Conselheiro
Um profeta da razão


Com seu cajado na mão
Amor e fé como escudos
Foi um grande visionário
Como hoje atestam os estudos
Fundou uma sociedade
Baseada na igualdade
Era o Arraial de Canudos!


Pobres e índios desnudos
Agricultores sem terra
Escravizados libertos
Cuja miséria desterra
Em Canudos recebidos
Por sua fama atraídos
No Belo Monte, na serra.


Mas logo viria a Guerra
Que até hoje está marcada
Uma trama tão sangrenta
Foi nos livros retratada
Conselheiro liderou
E Canudos enfrentou
Fez humana barricada


O exército em retirada
Várias vezes, recuou
Pois temia a grande força
Do povo que ali ficou
Até que numa investida
A luta enfim foi vencida
Do arraial nada restou


Mas Conselheiro ficou
Para sempre ser lembrado
Levaram sua cabeça
Seu corpo fora enterrado
Mas sua história ‘inda corre
Pois um herói nunca morre
Segue vivo o seu legado.


Outro herói decapitado
Que pra muitos foi bandido
O ilustre Rei do Cangaço
Pelo mundo conhecido
O Famoso Lampião
Que viveu lá no Sertão
Homem muito destemido


Maria Foi Cangaceira
Como Dadá foi também
Mulheres cheias de força
Que alcançaram muito além
Do que o tempo permitia
Que nos sirvam como guia
Pra sermos fortes, amém!


Dentre tantas heroínas
Dandara quero exaltar
Mulher negra, quilombola
Que é pra gente se orgulhar
E saber que a nossa herança
É de luta e de esperança
Para ninguém questionar


Nós precisamos lembrar
Da escravidão que passou
Honrar os antepassados
Que o europeu subjugou
Nossa origem evocar
Lá do outro lado do mar
O canto negro ecoou


Eu agora me despeço
Mas a lista não termina
Viva o povo desta terra
Nordestinos, nordestinas
O Cordel pediu passagem
Pra fazer esta homenagem
Aos heróis e heroínas!


Cada um com sua sina
Ariano Suassuna!
Luiz Gonzaga de Exu,
Baião foi sua fortuna
Também Maria Firmina
Romancista feminina
Com sua escrita oportuna


E a história coaduna
com a força da enfermeira
Anna Nery, da Bahia
No Brasil foi pioneira
Frei Caneca fuzilado
Por ter revolucionado
Nossa história por inteira


E assim, queira ou não queira
Não há como questionar
Nordestino é povo heroico
de jeito peculiar
me despeço, está na hora
adeus eu já vou embora
torço pra logo voltar!

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A Princesa e a Fava – Reconto em Cordel

Capa por Murilo Silva – Todos os direitos reservados

Princesa tem sono leve
É o que sempre ouvi dizer
No entanto essa princesa
Que você vai conhecer
Dormia sono profundo
Podendo acabar-se o mundo
Que ela nem vai perceber!

Ela tinha parentesco
Com a Bela Adormecida
Mora na Pedra do Reino*
Por todos é conhecida
A princesa nordestina
Com semblante de menina
Porém madura e vivida

Cochilava um certo dia
Debaixo de um Juazeiro
Foi quando a Ema Gemeu**
Abrindo um grande berreiro
Um sinal de coisa ruim
E a princesa mesmo assim
Sonhava no seu terreiro

– Levante e vá visitar
o príncipe Dom Augusto
lá no Reino da Lonjura
rapaz belo e bem robusto
Gritou sua mãe, a rainha
Acordando a pobrezinha
Que quase morre de susto

Ela foi na carruagem
Levada por um jumento
Balançando mais que tudo
– Desse jeito eu não me aguento!
[Mas dormiu da mesma forma
pois seu sono não tem norma
e nem precisa de alento…]

Chegando lá na Lonjura
Depois de dormir bastante
Foi recebida no reino
No fim do mundo, distante
A rainha soberana
Daquele reino a tirana
A esperava hesitante:

– Para casar com meu filho
só sendo mesmo perfeita!
deve ser doce e bem meiga
se não ele não te aceita!
tem que ser bem delicada
ser quieta e recatada
para ser por ele eleita!

A princesa insatisfeita
Não gostou do que ouviu
Mas fez que “sim” com seu rosto
E a tal rainha sumiu…
Ao quarto foi conduzida
Pela cama seduzida
Se acomodou e dormiu

Só que antes a Rainha
Colocou uma semente
Entre os colchões confortáveis
Próprios pra gente dormente
Um carocinho de fava!***
Um teste que se aplicava
À princesa pretendente

Se a princesa adormecesse
E não percebesse o grão
Não teria sono leve
Como manda a tradição
Seria então descartada
E da Lonjura enxotada
De volta para o Sertão

Mas a princesa dormindo
Sonhou com a ema gemendo…
E acordou do pesadelo
– Que sonho triste e horrendo!
sonhei que a ema gemia
dormindo eu nem percebia
já tô toda me tremendo!

O Sonho foi como aviso
E ela então se levantou
Nunca teve pesadelo
Por isso se preocupou
Queria voltar pra casa
Mas só se tivesse asa
Pois a rainha a trancou

Logo lembrou Rapunzel
Sua priminha distante
Mas não tinha o cabelão
E assim ficou relutante
Como fazer pra fugir?
Foi aí que viu surgir
Uma ideia bem brilhante

Foi à cama bem forrada
Para os lençóis retirar
Foi desforrando os colchões
Pois pretendia amarrar
Cada lençol com um nó
Qual fossem corda ou cipó
Pra poder se pendurar

Pela janela saltar…
Seu plano em nada pecava
Foi quando em meio aos colchões
Viu um caroço de fava
Que coisa mais intrigante
Ela pensou num instante
– Era só o que me faltava!

Desistiu da empreitada
E esperou amanhecer
A porta foi destrancada
E com a rainha foi ter
Chegou bufando, bem brava
Com o caroço de fava
Para todo mundo ver

A rainha estava estanque
Nem podia acreditar
– Você tem o sono leve!
com meu filho vai casar
vê-se que é delicada
pois dormiu incomodada
assim pude lhe testar

– Eu sou vim te perguntar…
[Disse bem bruta a princesa]
onde está o saco inteiro
da fava da realeza?
mande botar na bagagem
que em tempos de estiagem
vai ser útil, com certeza

pois adoro comer fava
e como até me fartar
pode dizer ao seu filho
que não quero me casar
que não sou fina, nem santa
mas só não durmo sem janta
por isso vim reclamar

essa noite um pesadelo
esteve me perturbando
nunca tive sonho ruim
foi meu bucho reclamando
de deitar sem refeição
não foi por causa de um grão
que estava me incomodando!

pensei até ter ouvido
a tal da ema gemer
mas foi mesmo o meu estômago
que não teve o que comer
fique sabendo Rainha
com essa gente mesquinha
eu não quero me envolver!

e se um dia eu voltar
melhore a recepção!
pois eu viajei por dias
cheguei com a fome do cão
e me portei como dama
mas me mandaram pra cama
sem um pedaço de pão?

A rainha se calou
Pois estava envergonhada
Viu a princesa partir
Muito brava e chateada
A partir daquele dia
Ela não mais testaria
Mais nenhuma convidada

Ao invés disso, mudou
Fazendo a recepção
Como manda o figurino
E também a tradição
Oferecendo um banquete
Com fava, angu e sorvete
E amor no coração

A princesa dorminhoca
Voltou pra casa sozinha
Com duas sacas de fava
E mais uma de farinha
Dormiu bem e satisfeita
Com a fava na cama, eita!
Mas dentro da barriguinha!

Por Mari Bigio, julho de 2021

A Princesa e a Fava, de Mari Bigio, é uma releitura do Conto de Fadas Clássico “A Princesa e a Ervilha”, de Hans Christian Andersen (1835). No enredo original a delicadeza da princesa é testada com uma ervilha, colocada em meio a uma pilha de colchões. Por sua pele extremamente delicada, só uma princesa de verdade é capaz de perceber o grão, pelo incômodo que ele provoca durante o sono.

* Referência ao “Romance da Pedra do Reino”, do mestre Ariano Suassuna
** Referência à canção “Canto da Ema”, do mestre Jackson do Pandeiro
*** A Fava é uma semente semelhante ao feijão, muito comum em estados do Nordeste brasileiro.

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Um Reino sem Dengue

Um Reino sem Dengue

Em 2021 fomos convidadas para apresentar a versão online da história “Um Reino sem Dengue”, o resultado vocês podem conferir no Youtube, um espetáculo de 30 minutos, utilizando bonecos, com tradução em libras, permeado por músicas e sonoplastia, que você pode exibir na sua escola! O texto traz informações muito importantes no combate ao Mosquito Aedes Aegypti!

ASSISTA AQUI!

Ministério do Turismo e Chem-Trend apresentam: “Um Reino Sem Dengue”.

Depois de circular por centenas de cidades Brasil afora, ‘Um Reino Sem Dengue’ ganha versão online para entreter toda a família e transforma a tela no seu palco principal para continuar conscientizando crianças e adultos sobre a dengue, um tema que se mantém atual e que, agora, utiliza a tecnologia para diminuir distâncias e garantir acesso à cultura e lazer à população de todas as idades.

A peça é ambientada em um reino onde não existem doenças, mas que é invadido por um inimigo “invisível” que deixa o rei doente. Para desvendar este mistério, o melhor detetive das redondezas é chamado. Com a ajuda do príncipe, das princesinhas e seus súditos, ele descobre que o grande vilão é o mosquito Aedes Aegypti. A história é baseada no livro homônimo de Alda de Miranda, que traz ilustrações de Ricardo Girotto.

Com músicas originais e paródias, a dupla de irmãs, Mari e Milla Bigio, cativa a atenção de grandes e pequeninos ao longo do enredo. A produção é da Villa 7 e AH 7 produções. O vídeo foi feito pela Curumim Produções, em parceria com o TECH HUB.

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Adivinhas Juninas

por Murilo Slva
Adivinhas Juninas – por Murilo Silva

Quem é bom de adivinhar
É capaz de responder
Tudo que eu for perguntar
Quem souber vai me dizer!

É só prestar atenção
Para entrar no nosso clima
Lembrando do São João
E com a ajuda da rima!

Pois… o que é, o que é?
Quem errar vai levar breque
É comida mas tem pé?
É o Bolo… Pé-de-moleque!

Tem dente, tem cabelinho
Mas não tem pai, nem tem filho
Ele é bem amarelinho
O que é, então? O Milho!

Ela é prima da Pamonha
De gostosura tão rica
Guloso dorme e até sonha
Em comer uma… Canjica!

Ela dança na panela
Mesmo se a banda não toca
Parece flor de tão bela
Quem adivinha? Pipoca!

No Balancê: saia gira…
Dança o pai, a mãe e a filha
Tem cobra, só de mentira
Todos dançam na…. Quadrilha!

E a Quadrilha que se preze
Tem um noivo que é astuto
Tem noiva, um Padre que reze
No… Casamento Matuto!

Antes voava no céu
Agora enfeita o Salão
Colorido, de papel
Quem já sabe? É o Balão!

Lá no alto, enfileiradas
Todas bem coloridinhas
Deixam ruas decoradas
Adivinhou? Bandeirinhas!

Tem as teclas de um piano
E quando toca emociona
Gonzagão, há muitos anos
Tocava a sua… Sanfona!

Com sua luz tremulando
Esquenta a festança inteira
Com a chama crepitando
Todo arraial tem…? Fogueira!

Por Mari Bigio

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São João na minha terra! – Literatura de Cordel

Imagem de anarosadebastiani por Pixabay

São João na minha terra
é a festa mais completa
brinde a todos os sentidos
de sorrisos tão repleta
vou narrar nesse cordel
cumprindo assim meu papel
minha missão de poeta

Minha festa predileta
começando da comida
tem Pamonha, tem Canjica
a receita preferida
assado ou cozido então
o Milho é o anfitrião
a fartura é garantida

A Paçoca é conhecida
também tem o Mungunzá
famoso Pé-de-moleque
e o tal Bolo de Fubá
Pipoca pra criançada
tem Beju e tem Cocada
mais saborosa não há!

Ficar de fora não dá!
quando a Quadrilha começa
tem Casamento Matuto
que mais parece uma peça
diversão tão teatral
no terreiro do arraial
pra gente dançar à beça!

Se uma mocinha tropeça
vem um rapaz lhe ajudar
já lhe convida pra dança
já tem romance no ar
São João tá no comando
Santo Antônio vai chegando
se há casamento no altar

Mas se a chuva começar
São Pedro que tá brincando
santo da Chave do Céu
que traz chuva abençoando
e irrigando a colheita
no palhoção já se ajeita
a multidão se abrigando

-Vem que tá só garoando!
a moça chama faceira
a Quadrilha recomeça
pois foi chuva passageira
tem a Barraca do Beijo
com as luzes em lampejo
e o crepitar da fogueira

A farra se faz inteira
com boa música tocando
Forrózinho Pé-de-serra
e o povo vai xumbregando
o Trio que faz o Xote
Gonzagão que deu o mote
a gente lembra cantando

A Zabumba batucando
com grave sonoridade
o Triângulo é agudo
exigindo habilidade
no meio é sempre a Sanfona
e a voz tomando Carona
na sua tonalidade

Arrastapé de verdade
de fazer calo no dedo
uma chinela de Couro
pra deslizar sem segredo
se alguém puxar um Xaxado
aí o passo é dobrado
vem do Cangaço esse enredo

-Não vá ainda, que é cedo!
-Olha pro céu, meu amor!
fogos cintilando a noite
e enchendo os olhos de cor
o beijo doce, encarnado
é pra mais tarde, guardado
vai apurando o sabor

Lá vem o santo no andor
se a festa tem procissão
o profano e o sagrado
lado a lado, em união
tem bandeira pra saudar
oferenda pra louvar
sincretismo e tradição

Barulho de foguetão
tiros de Bacamarteiros
saia rodada e florida
chapéu para os Cavalheiros
vestimenta tão bonita
tem xadrez, também tem chita
e outros tecidos brejeiros

Os meninos mais arteiros
querendo soltar rojão!
estrela, traque de massa
pra enfeitar tem balão
fileiras de bandeirinhas
por todo canto há fitinhas
e a imagem de São João

Sanfona toca um Baião
depois tem Coco de Roda
tem o Correio Elegante
que nunca saiu de moda
e quando a fest se acaba
a saudade chega é braba
daquelas que deixam noda

A gente não se acomoda
co’as memórias, nostalgias
Zabumba ecoa no peito
lembrando das alegrias
pro povo do meu rincão
era bom se o São João
tivesse uns 90 dias!

Mari Bigio
Maio de 2021




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A Magia da Quadrilha Junina – Literatura de Cordel

Quadrilha Junina – Xil de J. Borges

Quando penso em São João
lembro a Quadrilha Junina
arraial todo enfeitado
pra essa festa que é divina
a turma, que já ve pronta
a apresentação se monta
brincadeira genuína!

A dança típica nordestina
que lá na Europa nasceu
saiu do salões da corte
virou do povo plebeu
comandos em “matutês”
com resquícios do francês
pouco que permaneceu

Aqui se estabeleceu
do Sertão fez seu reduto
recebeu nova roupagem
e é sucesso absoluto
com personagens diversos
com rimas e muitos versos
e o Casamento Matuto

Tem o Noivo, sempre astuto
que correr, pra se livrar
fugindo do casamento
levado à força ao altar
a cena fica intrigante
pois sua Noiva gestante
o espera pra se casar

Já pronto pra celebrar
o Padre um tanto confuso
o Pai da Noiva, sisudo
e o Delegado obtuso
o Noivo não quer velório
e assim se faz o casório
e o caso encerra, concluso

Uma Dama, em parafuso
que é convidada da festa
desmaia na multidão
com sua mão sobre a testa
perdeu pra sempre o amado
o Noivo, agora casado
e chorar é o que lhe resta…

A celebração modesta
sai pro baile iniciar
cada Dama e Cavalheiro
vai procurando seu par
o Marcador vem puxando
e o povo vai se animando
pra começar a dançar

Tome sanfona a tocar!
zabumba na marcação
e o triangueiro arretado
dá-lhe com força na mão!
Os vestidos, bem rodados
saias cheias de babados
vão girando no salão

Eis que chega Lampião
homem corre, mulher grita
a festa que estava calma
no mesmo instante se agita
Soldado com Cangaceiro
dois “cabra macho, encrenqueiro”
e a multidão toda aflita

Só que Maria Bonita
quer curtir a festa em paz
Lampião faz concessão
o Soldado também faz
o Juiz entra no meio
a trégua é posta em sorteio
com a moeda de um rapaz…

Aquele acordo é capaz
de durar um só momento
mas todos voltam à dança
festejando o casamento
já vão se ajustando os pares
Marcador: – Aos seus lugares!
a Quadrilha em movimento

Dançar lhes traz um alento
quem não ama um Balancê ?
Marcador: – Alavantu !
e depois: – Anarriê !
Olha a chuva! Te molhou?
não se avexe: – Já passou!
lá vem Desfile e changê !

Se dou a mão pra você
a Grande Roda vem vindo
depois o Túnel se forma
como todo mundo aderindo
Olha a cobra, é mentira!
e a Rainha dança e gira
com seu brilho reluzindo

Sob o céu noturno e lindo
com as bênçãos do luar
o buquê jogado às Damas
e a festa por terminar
Os Noivos em despedida
vão viver a nova vida
que agora vai começar

Fogos explodem no ar
e a Bandeira de São João
a Quadrilha é aplaudida
já vai deixando o salão
em adeus, o Marcador
vai dizendo o seu louvor
com a mão no coração

A Quadrilha é emoção
mais que coreografia!
é humor, suor, trabalho
brincadeira e sincronia
é orgulho e devocão
é cultura, é tradição
Quadrilha é pura Magia!

por Mari Bigio,

Maio 2021

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O Palhaço que tinha medo de risada – História Poética

O Palhaço que tinha medo de risada – por Murilo Silva

Era uma vez

Um palhaço…

.

Que tinha medo de risada!

.

Seu primeiro dia no Circo

Na primeira palhaçada

A plateia inteira riu

De forma sincronizada

.

O palhaço ficou duro!

Sentiu-se só, no escuro

Do picadeiro fugiu

Onde é que já se viu?

Coisa tão inusitada

Um palhaço, minha gente

Que tem medo de risada!

.

De aplausos ele gostava

Assobios? Sem problema!

Mas vivia um dilema

Sempre a cada palhaçada

Pois esse era um palhaço

Que tinha medo de risada!

.

Vamos fazer um teste,

Pra ver se é mesmo verdade?

Ou se é coisa da vaidade

De um palhaço inconsequente?

Quem aí está contente?

Vamos dar uma gargalhada?

Bem alta, bem ritmada,

Daquelas bem estridentes?!!

.

1, 2, 3….

Ahahahahahahahahahahahaha!

.

Xiiiiii

Não tem jeito minha gente!

Tô ficando preocupada

Esse é mesmo um palhaço

Que tem medo de risada!

.

Ele foi pra terapia…

Ouviu risada de bruxa!

Mas vejam só, que papel!

O médico receitou até

Risada de…. Papai Noel!

.

Risada de voz muito grave

E de voz esganiçada

Só pra ver se ele perdia

O tal medo de risada

.

Risada de bebezinho…!

Risada de vovózinha…!

Risada até de porquinho…!

E o pato até arriscou

uma risada baixinha….!

.

Conversou com uma hiena

Que ria enquanto falava

E a tal da terapia, foi dando uma melhorada

E o palhaço foi perdendo

O seu medo de risada!

.

Depois de ouvir tanto riso

Depois de ouvir gargalhada

Chegou a hora de o palhaço

Ter a coragem testada

Será que ele ainda teria

O tal medo de risada?

.

Plateia na arquibancada

Gente de toda idade

De cada canto do mundo

De diferentes cidades

.

O apresentador chegou

E ali logo anunciou

Do circo a tal novidade

.

“Nariz de Tomate

Seja bem-vindo ao circo!”

.

Ele entrou no picadeiro

E deu logo um trupicão!

Antes de chegar no meio

Deu foi com o nariz no chão!

.

Ô palhaço mais maluco!

É da trupe zupe-zupe

Era Nariz de Tomate

Mas agora é Quétichupe!

.

Começou a risadagem

Todo mundo gargalhava

O palhaço se escondeu

Mas aos poucos já gostava

De ouvir aquele som

Quer dizer que ele era bom!

E todos gostavam dele!

.

Ele então continuou

Seu número prosseguiu

A plateia riu, que riu

Assobiou, aplaudiu!

E ele estava curado!

.

Viva o Nariz de Tomate!

Viva a sua palhaçada!

Viva o palhaço que um dia

teve medo de risada!

.

Por Mari Bigio

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As Águas e o Capibaribe – Cordel

Escrevi este Cordel para compor uma coletânea de folhetos com temática ambiental, à convite da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura da Cidade do Recife, em 2013.

Um poeta já nos disse:
“nossa vida é como um rio”
flui sem pressa e retenção
em seu leito, no baixio
guarda todos os segredos
as vivências e os medos
a beleza e o sombrio

Um espelho d’água clara
que reflete nossa alma
a voz do rio revela
a quem escutar com calma:
conta sobre suas gentes
pois ele e seus afluentes
são como as linhas da palma

Assim o Capibaribe
o Rio das Capivaras
nos fala de tempos idos
de coisas velhas e raras
de cheias, revoluções
de senzalas e mansões
histórias belas e caras

Sua foz em pleno Porto
não esquece da nascente
dos causos dos pescadores
da gente pobre e contente
que vive à margem do rio
das cores do casario
que aquarela o Sol poente

João Cabral de Melo Neto
fez do rio Severino*
o exímio “Cão sem Plumas”**
nas memórias do menino
– que foi Manuel Bandeira –
jangadas de bananeira
caboclos no Sol à pino

Chamado “Capiberibe”
numa certa Evocação***
no Cais da Rua da Aurora
logo após a União
carrega o sentimento
do primeiro alumbramento
testemunha da paixão

Este rio que nos corta
atravessa, não reparte
como se fosse uma artéria
do Recife um estandarte
da cidade o coração
e fonte de inspiração
da poesia e da arte

Do letreiro do Cinema
à Ponte de Ferro antiga
faz parte dessa paisagem
como um verso da cantiga
e as estátuas dos poetas
repousando mui quietas
na beirada que os abriga

O seu curso, poluído
hoje encontra-se exangue
Como um corpo sobrevive
contaminando-se o sangue?
é como um quadro dantesco
mesmo triste, pitoresco
emoldurado por mangue

Um dejeto que se afunda
esperança que naufraga
será que este rio guarda
da cidade certa mágoa?
penso na situação
d’um córrego, um ribeirão
e outros tantos cursos d’água…

É mesmo que envenenar-se
degradar o ambiente
fazer das águas “lixão”
não usar corretamente
este Bem que é pura Vida
este poema elucida
o seu uso consciente

Tanta gente reclamando
do calor, que nos enfada
e põe a culpa no Sol
enquanto lava a calçada
o carro fica tinindo
e o tesouro se esvaindo
é água desperdiçada…

Para ter alma lavada
melhor fechar a torneira
pra quem canta no chuveiro
pode parecer besteira
mas o que vai pelo ralo
é precioso regalo
da uma existência inteira

O corpo é feito de água
o fluido corre na veia
e a Terra vista do alto?
é toda azul, nossa aldeia!
e assim é fácil pensar
que é necessário cuidar
da água que nos rodeia

E deste rio bonito
no coração da cidade
que aos poucos vai retomando
a sua longevidade
e se juntos embarcamos
então com ele pulsamos
tamanha afetividade!

Mari Bigio
Recife, outubro de 2013.

NOTAS:

*Referência ao livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

** Referência ao livro “O Cão Sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto.

***Referência ao poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira.

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“Carta ao Pirata” ou “Tesouro da Mamãe” – Cordel para Crianças

Pirata – por Murilo Silva

Esta aqui é um história
Que se passa em alto mar
Num navio de piratas
Que está sempre a navegar

Capitão perna-de-pau
É caolho e carrancudo
Tem cinco dentes de ouro
Além de ser bem barbudo

Certa noite foi dormir
Depois de pilhar navios
E mergulhou em um sonho
Desses tipos bem sombrios…

Sonhou com bela sereia
Que ao seu encontro nadava
Mas que virava uma bruxa
Logo que se aproximava!

Sonhou também com um tesouro
Num baú desenterrado
Mas quando abriu a caixola
Viu caveiras aos bocados!

Foi melhor deixar trancado
O baú mal assombrado
E no sonho, o Capitão
A uma praia foi levado

Muitas conchas e corais
As ondas e a mansidão…
Foi aí que de repente
Houve uma grande explosão!

Num é que era um vulcão?!
Que espirrava lava quente?
O Capitão se jogou
Nadando contra a corrente!

E no mar se debatia
E só fazia gritar
E quem já viu um pirata
Que nunca soube nadar?

Começou a se afogar
Foi quando enfim acordou
Ufa! Era tudo um sonho!
Ainda bem que acabou!

Logo na manhã seguinte
A sua barba aparou
Pôs dentadura e um óculos
E uma decisão tomou:

O pirata encomendou
[E chegou de avião]
Uma piscina pequena
E um professor bem fortão

Fez aula de natação
Todo dia, no convés
E quem fizesse chacota
Levava logo um revés!

Também mudou a bandeira
Que no mastro era hasteada
E no lugar de caveiras
Tinha outras formas pintadas:

Uns peixinhos, bem bonitos
Anunciavam mudança
O tal Navio Pirata
Em nova fase se lança

Virou navio pesqueiro
Já não roubava ninguém
Nem procurava tesouros
Escondidos muito além

Os marujos demoraram
Foi dura a adaptação
Nada de prisioneiros
Jogados ao Tubarão…

Os canhões aposentados
Cederam lugar às redes
E foi pro lixo um quadrinho
Pendurado na parede

O quadro de uma sereia
Bem bonita e formosa
Deu lugar a um retrato
De uma senhora sestrosa!

– É sua mãe, Capitão?
– É , e vem nos visitar!
não fale em pirataria
que a mamãe não vai gostar!

Quem achou que foi um sonho
Que mudou o Capitão
Está bastante enganado
Tem ingênuo coração!

Foi mesmo a correspondência
Que recebeu de um pombinho:
Mamãe vai te ver, “tesouro”!
e já estou no caminho!

E Estou muito orgulhosa,
dessa sua profissão
pois soube que és pescador
e também que és Capitão!

E fiquei tão curiosa
e mesmo assim preocupada:
nunca soubestes nadar!
mas vejo que agora nada!

Vou querer demonstração
das tuas habilidades!
quero mergulhar contigo
depois das atividades!

Também espero que tenhas
mudado o comportamento
que não penses em beldades
a cada e todo momento!

Pois a mamãe sempre disse
que há muita bruxa escondida
sob a pele de sereia
tenha cuidado na vida!

Já estou bem ansiosa
e já quero te abraçar
não precisa ajeitar nada
arrumo quando chegar!

Mãe é mesmo autoridade
Que comanda o coração
Não tem pirata que lute
Quando a mamãe tem razão!

Por Mari Bigio

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A Peleja da Mulher com o Espelho – Cordel para transformar mulheres

A Peleja da Mulher com o Espelho – Vídeo Performance

Bem diante do Espelho
A Mulher se viu despida
Sentiu-se tão vulnerável
Muito frágil, constrangida
Não gostava do que via
Seu olhar entristecia
Como estivesse ferida

A Mulher, quase encolhida
Execrava a própria imagem
Quis culpar o tal Espelho
Desejando camuflagem
(MULHER) “Teu intento é de humilhar?
Insistindo em me mostrar
essa terrível visagem?”

(ESPELHO) “Desejas uma miragem?
A mentira, a ilusão?
Pois eu só mostro a verdade
como a água em mansidão
que reflete a luz da lua
eis a tua pele nua
só reflito exatidão”

(MULHER) “Mas fere o meu coração
me enxergar assim, tão feia
já que são tão bonitas
as moças de minha aldeia
de certo, tens algum grau
me deformas, sendo mau
e a vergonha me cerceia!”

(ESPELHO) “Se não te enxergas sereia
a culpa já não é minha
as outras mulheres todas
vêm co’ a mesma ladainha
outros corpos refleti
tudo o que reproduzi
tinhas rugas e espinhas…

tinha curvas, tantas linhas
tamanhos, tantas alturas
cicatrizes, celulites
e o que chamam de “gorduras”
cada mulher que se via
insatisfeita ruía
em seu pesar de amarguras

tantas lindas criaturas
com olhar aprisionado
achando que está lá fora
o segredo do “El Dorado”
não sabem que todo espelho
é somente um aparelho
ao silêncio condenado

mas se for enfeitiçado…
ele poderá falar
e dizer dessa beleza
que mora no “ se gostar”
na aceitação do seu jeito
do ventre, pernas e peito
do cabelo ao calcanhar!”

(MULHER) “Pois eu já ouvi contar
de um espelho assim, falante
que só incitou inveja
sentimento revoltante
o espelho, espelho meu
sensual entorpeceu
a rainha relutante!”

(ESPELHO) “Foi só coadjuvante
o espelho nessa história
a rainha já nutria
bem no fundo da memória
um ciúme doentio
e esse lado, tão sombrio
rebelou-se em sua glória”

(MULHER) “Uma defesa notória…
E o espelho que quebrar,
não garante à sua dona
os 7 anos de azar?
Presunção e petulância
ou talvez a arrogância
dessa arte de espelhar!”

(ESPELHO) “Pra não deixar-se quebrar
em cacos pontiagudos
foi que inventou-se esse mito
dentre os espelhos miúdos
transportados em maletas
recostados em gavetas
dentre tantos conteúdos

e enfim, eu te saúdo
por tua tez, tão singela
és natural com teu brilho
por isso mesmo és tão bela
que um dia possa me olhar
e em mim te ver, e gostar
sem tristeza e sem querela!”

(MULHER) “A mulher que se revela
me parece diferente
você mudou o meu corpo?
Ou mudou a minha mente?
Transformou o meu olhar?
Eu já sou capaz de amar
esse corpo em minha frente!”

A Mulher ficou descrente
Ao notar sua beleza
O Espelho ficou mudo
Mas refletiu com pureza
Tal como é de seu feitio
Espelhando todo o brio
Das deusas da natureza

A Mulher teve certeza
De que havia transmutado…
Mas o espelho era ela mesma
Conversando do outro lado
Era a sua consciência
O seu “eu”, com sapiência
Como espelho, disfarçado

Com seu olhar renovado
Alma reconfigurada
Seu corpo se viu mais leve
E livre em sua jornada
Ponha seu batom vermelho
Faça as pazes com o espelho
Seja também transformada!

Por Mari Bigio, Março de 2021

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