A Magia da Quadrilha Junina – Literatura de Cordel

Quadrilha Junina – Xil de J. Borges

Quando penso em São João
lembro a Quadrilha Junina
arraial todo enfeitado
pra essa festa que é divina
a turma, que já ve pronta
a apresentação se monta
brincadeira genuína!

A dança típica nordestina
que lá na Europa nasceu
saiu do salões da corte
virou do povo plebeu
comandos em “matutês”
com resquícios do francês
pouco que permaneceu

Aqui se estabeleceu
do Sertão fez seu reduto
recebeu nova roupagem
e é sucesso absoluto
com personagens diversos
com rimas e muitos versos
e o Casamento Matuto

Tem o Noivo, sempre astuto
que correr, pra se livrar
fugindo do casamento
levado à força ao altar
a cena fica intrigante
pois sua Noiva gestante
o espera pra se casar

Já pronto pra celebrar
o Padre um tanto confuso
o Pai da Noiva, sisudo
e o Delegado obtuso
o Noivo não quer velório
e assim se faz o casório
e o caso encerra, concluso

Uma Dama, em parafuso
que é convidada da festa
desmaia na multidão
com sua mão sobre a testa
perdeu pra sempre o amado
o Noivo, agora casado
e chorar é o que lhe resta…

A celebração modesta
sai pro baile iniciar
cada Dama e Cavalheiro
vai procurando seu par
o Marcador vem puxando
e o povo vai se animando
pra começar a dançar

Tome sanfona a tocar!
zabumba na marcação
e o triangueiro arretado
dá-lhe com força na mão!
Os vestidos, bem rodados
saias cheias de babados
vão girando no salão

Eis que chega Lampião
homem corre, mulher grita
a festa que estava calma
no mesmo instante se agita
Soldado com Cangaceiro
dois “cabra macho, encrenqueiro”
e a multidão toda aflita

Só que Maria Bonita
quer curtir a festa em paz
Lampião faz concessão
o Soldado também faz
o Juiz entra no meio
a trégua é posta em sorteio
com a moeda de um rapaz…

Aquele acordo é capaz
de durar um só momento
mas todos voltam à dança
festejando o casamento
já vão se ajustando os pares
Marcador: – Aos seus lugares!
a Quadrilha em movimento

Dançar lhes traz um alento
quem não ama um Balancê ?
Marcador: – Alavantu !
e depois: – Anarriê !
Olha a chuva! Te molhou?
não se avexe: – Já passou!
lá vem Desfile e changê !

Se dou a mão pra você
a Grande Roda vem vindo
depois o Túnel se forma
como todo mundo aderindo
Olha a cobra, é mentira!
e a Rainha dança e gira
com seu brilho reluzindo

Sob o céu noturno e lindo
com as bênçãos do luar
o buquê jogado às Damas
e a festa por terminar
Os Noivos em despedida
vão viver a nova vida
que agora vai começar

Fogos explodem no ar
e a Bandeira de São João
a Quadrilha é aplaudida
já vai deixando o salão
em adeus, o Marcador
vai dizendo o seu louvor
com a mão no coração

A Quadrilha é emoção
mais que coreografia!
é humor, suor, trabalho
brincadeira e sincronia
é orgulho e devocão
é cultura, é tradição
Quadrilha é pura Magia!

por Mari Bigio,

Maio 2021

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“Carta ao Pirata” ou “Tesouro da Mamãe” – Cordel para Crianças

Pirata – por Murilo Silva

Esta aqui é um história
Que se passa em alto mar
Num navio de piratas
Que está sempre a navegar

Capitão perna-de-pau
É caolho e carrancudo
Tem cinco dentes de ouro
Além de ser bem barbudo

Certa noite foi dormir
Depois de pilhar navios
E mergulhou em um sonho
Desses tipos bem sombrios…

Sonhou com bela sereia
Que ao seu encontro nadava
Mas que virava uma bruxa
Logo que se aproximava!

Sonhou também com um tesouro
Num baú desenterrado
Mas quando abriu a caixola
Viu caveiras aos bocados!

Foi melhor deixar trancado
O baú mal assombrado
E no sonho, o Capitão
A uma praia foi levado

Muitas conchas e corais
As ondas e a mansidão…
Foi aí que de repente
Houve uma grande explosão!

Num é que era um vulcão?!
Que espirrava lava quente?
O Capitão se jogou
Nadando contra a corrente!

E no mar se debatia
E só fazia gritar
E quem já viu um pirata
Que nunca soube nadar?

Começou a se afogar
Foi quando enfim acordou
Ufa! Era tudo um sonho!
Ainda bem que acabou!

Logo na manhã seguinte
A sua barba aparou
Pôs dentadura e um óculos
E uma decisão tomou:

O pirata encomendou
[E chegou de avião]
Uma piscina pequena
E um professor bem fortão

Fez aula de natação
Todo dia, no convés
E quem fizesse chacota
Levava logo um revés!

Também mudou a bandeira
Que no mastro era hasteada
E no lugar de caveiras
Tinha outras formas pintadas:

Uns peixinhos, bem bonitos
Anunciavam mudança
O tal Navio Pirata
Em nova fase se lança

Virou navio pesqueiro
Já não roubava ninguém
Nem procurava tesouros
Escondidos muito além

Os marujos demoraram
Foi dura a adaptação
Nada de prisioneiros
Jogados ao Tubarão…

Os canhões aposentados
Cederam lugar às redes
E foi pro lixo um quadrinho
Pendurado na parede

O quadro de uma sereia
Bem bonita e formosa
Deu lugar a um retrato
De uma senhora sestrosa!

– É sua mãe, Capitão?
– É , e vem nos visitar!
não fale em pirataria
que a mamãe não vai gostar!

Quem achou que foi um sonho
Que mudou o Capitão
Está bastante enganado
Tem ingênuo coração!

Foi mesmo a correspondência
Que recebeu de um pombinho:
Mamãe vai te ver, “tesouro”!
e já estou no caminho!

E Estou muito orgulhosa,
dessa sua profissão
pois soube que és pescador
e também que és Capitão!

E fiquei tão curiosa
e mesmo assim preocupada:
nunca soubestes nadar!
mas vejo que agora nada!

Vou querer demonstração
das tuas habilidades!
quero mergulhar contigo
depois das atividades!

Também espero que tenhas
mudado o comportamento
que não penses em beldades
a cada e todo momento!

Pois a mamãe sempre disse
que há muita bruxa escondida
sob a pele de sereia
tenha cuidado na vida!

Já estou bem ansiosa
e já quero te abraçar
não precisa ajeitar nada
arrumo quando chegar!

Mãe é mesmo autoridade
Que comanda o coração
Não tem pirata que lute
Quando a mamãe tem razão!

Por Mari Bigio

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O Palhaço que tinha medo de risada – História Poética

O Palhaço que tinha medo de risada – por Murilo Silva

Era uma vez

Um palhaço…

.

Que tinha medo de risada!

.

Seu primeiro dia no Circo

Na primeira palhaçada

A plateia inteira riu

De forma sincronizada

.

O palhaço ficou duro!

Sentiu-se só, no escuro

Do picadeiro fugiu

Onde é que já se viu?

Coisa tão inusitada

Um palhaço, minha gente

Que tem medo de risada!

.

De aplausos ele gostava

Assobios? Sem problema!

Mas vivia um dilema

Sempre a cada palhaçada

Pois esse era um palhaço

Que tinha medo de risada!

.

Vamos fazer um teste,

Pra ver se é mesmo verdade?

Ou se é coisa da vaidade

De um palhaço inconsequente?

Quem aí está contente?

Vamos dar uma gargalhada?

Bem alta, bem ritmada,

Daquelas bem estridentes?!!

.

1, 2, 3….

Ahahahahahahahahahahahaha!

.

Xiiiiii

Não tem jeito minha gente!

Tô ficando preocupada

Esse é mesmo um palhaço

Que tem medo de risada!

.

Ele foi pra terapia…

Ouviu risada de bruxa!

Mas vejam só, que papel!

O médico receitou até

Risada de…. Papai Noel!

.

Risada de voz muito grave

E de voz esganiçada

Só pra ver se ele perdia

O tal medo de risada

.

Risada de bebezinho…!

Risada de vovózinha…!

Risada até de porquinho…!

E o pato até arriscou

uma risada baixinha….!

.

Conversou com uma hiena

Que ria enquanto falava

E a tal da terapia, foi dando uma melhorada

E o palhaço foi perdendo

O seu medo de risada!

.

Depois de ouvir tanto riso

Depois de ouvir gargalhada

Chegou a hora de o palhaço

Ter a coragem testada

Será que ele ainda teria

O tal medo de risada?

.

Plateia na arquibancada

Gente de toda idade

De cada canto do mundo

De diferentes cidades

.

O apresentador chegou

E ali logo anunciou

Do circo a tal novidade

.

“Nariz de Tomate

Seja bem-vindo ao circo!”

.

Ele entrou no picadeiro

E deu logo um trupicão!

Antes de chegar no meio

Deu foi com o nariz no chão!

.

Ô palhaço mais maluco!

É da trupe zupe-zupe

Era Nariz de Tomate

Mas agora é Quétichupe!

.

Começou a risadagem

Todo mundo gargalhava

O palhaço se escondeu

Mas aos poucos já gostava

De ouvir aquele som

Quer dizer que ele era bom!

E todos gostavam dele!

.

Ele então continuou

Seu número prosseguiu

A plateia riu, que riu

Assobiou, aplaudiu!

E ele estava curado!

.

Viva o Nariz de Tomate!

Viva a sua palhaçada!

Viva o palhaço que um dia

teve medo de risada!

.

Por Mari Bigio

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As Águas e o Capibaribe – Cordel

Escrevi este Cordel para compor uma coletânea de folhetos com temática ambiental, à convite da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura da Cidade do Recife, em 2013.

Um poeta já nos disse:
“nossa vida é como um rio”
flui sem pressa e retenção
em seu leito, no baixio
guarda todos os segredos
as vivências e os medos
a beleza e o sombrio

Um espelho d’água clara
que reflete nossa alma
a voz do rio revela
a quem escutar com calma:
conta sobre suas gentes
pois ele e seus afluentes
são como as linhas da palma

Assim o Capibaribe
o Rio das Capivaras
nos fala de tempos idos
de coisas velhas e raras
de cheias, revoluções
de senzalas e mansões
histórias belas e caras

Sua foz em pleno Porto
não esquece da nascente
dos causos dos pescadores
da gente pobre e contente
que vive à margem do rio
das cores do casario
que aquarela o Sol poente

João Cabral de Melo Neto
fez do rio Severino*
o exímio “Cão sem Plumas”**
nas memórias do menino
– que foi Manuel Bandeira –
jangadas de bananeira
caboclos no Sol à pino

Chamado “Capiberibe”
numa certa Evocação***
no Cais da Rua da Aurora
logo após a União
carrega o sentimento
do primeiro alumbramento
testemunha da paixão

Este rio que nos corta
atravessa, não reparte
como se fosse uma artéria
do Recife um estandarte
da cidade o coração
e fonte de inspiração
da poesia e da arte

Do letreiro do Cinema
à Ponte de Ferro antiga
faz parte dessa paisagem
como um verso da cantiga
e as estátuas dos poetas
repousando mui quietas
na beirada que os abriga

O seu curso, poluído
hoje encontra-se exangue
Como um corpo sobrevive
contaminando-se o sangue?
é como um quadro dantesco
mesmo triste, pitoresco
emoldurado por mangue

Um dejeto que se afunda
esperança que naufraga
será que este rio guarda
da cidade certa mágoa?
penso na situação
d’um córrego, um ribeirão
e outros tantos cursos d’água…

É mesmo que envenenar-se
degradar o ambiente
fazer das águas “lixão”
não usar corretamente
este Bem que é pura Vida
este poema elucida
o seu uso consciente

Tanta gente reclamando
do calor, que nos enfada
e põe a culpa no Sol
enquanto lava a calçada
o carro fica tinindo
e o tesouro se esvaindo
é água desperdiçada…

Para ter alma lavada
melhor fechar a torneira
pra quem canta no chuveiro
pode parecer besteira
mas o que vai pelo ralo
é precioso regalo
da uma existência inteira

O corpo é feito de água
o fluido corre na veia
e a Terra vista do alto?
é toda azul, nossa aldeia!
e assim é fácil pensar
que é necessário cuidar
da água que nos rodeia

E deste rio bonito
no coração da cidade
que aos poucos vai retomando
a sua longevidade
e se juntos embarcamos
então com ele pulsamos
tamanha afetividade!

Mari Bigio
Recife, outubro de 2013.

NOTAS:

*Referência ao livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

** Referência ao livro “O Cão Sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto.

***Referência ao poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira.

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A Peleja da Mulher com o Espelho – Cordel para transformar mulheres

A Peleja da Mulher com o Espelho – Vídeo Performance

Bem diante do Espelho
A Mulher se viu despida
Sentiu-se tão vulnerável
Muito frágil, constrangida
Não gostava do que via
Seu olhar entristecia
Como estivesse ferida

A Mulher, quase encolhida
Execrava a própria imagem
Quis culpar o tal Espelho
Desejando camuflagem
(MULHER) “Teu intento é de humilhar?
Insistindo em me mostrar
essa terrível visagem?”

(ESPELHO) “Desejas uma miragem?
A mentira, a ilusão?
Pois eu só mostro a verdade
como a água em mansidão
que reflete a luz da lua
eis a tua pele nua
só reflito exatidão”

(MULHER) “Mas fere o meu coração
me enxergar assim, tão feia
já que são tão bonitas
as moças de minha aldeia
de certo, tens algum grau
me deformas, sendo mau
e a vergonha me cerceia!”

(ESPELHO) “Se não te enxergas sereia
a culpa já não é minha
as outras mulheres todas
vêm co’ a mesma ladainha
outros corpos refleti
tudo o que reproduzi
tinhas rugas e espinhas…

tinha curvas, tantas linhas
tamanhos, tantas alturas
cicatrizes, celulites
e o que chamam de “gorduras”
cada mulher que se via
insatisfeita ruía
em seu pesar de amarguras

tantas lindas criaturas
com olhar aprisionado
achando que está lá fora
o segredo do “El Dorado”
não sabem que todo espelho
é somente um aparelho
ao silêncio condenado

mas se for enfeitiçado…
ele poderá falar
e dizer dessa beleza
que mora no “ se gostar”
na aceitação do seu jeito
do ventre, pernas e peito
do cabelo ao calcanhar!”

(MULHER) “Pois eu já ouvi contar
de um espelho assim, falante
que só incitou inveja
sentimento revoltante
o espelho, espelho meu
sensual entorpeceu
a rainha relutante!”

(ESPELHO) “Foi só coadjuvante
o espelho nessa história
a rainha já nutria
bem no fundo da memória
um ciúme doentio
e esse lado, tão sombrio
rebelou-se em sua glória”

(MULHER) “Uma defesa notória…
E o espelho que quebrar,
não garante à sua dona
os 7 anos de azar?
Presunção e petulância
ou talvez a arrogância
dessa arte de espelhar!”

(ESPELHO) “Pra não deixar-se quebrar
em cacos pontiagudos
foi que inventou-se esse mito
dentre os espelhos miúdos
transportados em maletas
recostados em gavetas
dentre tantos conteúdos

e enfim, eu te saúdo
por tua tez, tão singela
és natural com teu brilho
por isso mesmo és tão bela
que um dia possa me olhar
e em mim te ver, e gostar
sem tristeza e sem querela!”

(MULHER) “A mulher que se revela
me parece diferente
você mudou o meu corpo?
Ou mudou a minha mente?
Transformou o meu olhar?
Eu já sou capaz de amar
esse corpo em minha frente!”

A Mulher ficou descrente
Ao notar sua beleza
O Espelho ficou mudo
Mas refletiu com pureza
Tal como é de seu feitio
Espelhando todo o brio
Das deusas da natureza

A Mulher teve certeza
De que havia transmutado…
Mas o espelho era ela mesma
Conversando do outro lado
Era a sua consciência
O seu “eu”, com sapiência
Como espelho, disfarçado

Com seu olhar renovado
Alma reconfigurada
Seu corpo se viu mais leve
E livre em sua jornada
Ponha seu batom vermelho
Faça as pazes com o espelho
Seja também transformada!

Por Mari Bigio, Março de 2021

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A Morte e O Avarento – Um Conto da Morte em Cordel

A Morte – por Murilo Silva

No sertão de Pernambuco

Corre a história do dia

Em que a Morte fez sucesso

Por ganhar na loteria

Ficou rica e milionária

A tal dama tão sombria

.

Um senhor muito avarento

Fez fortuna e não casou

“Pra gastar o meu dinheiro?

Nem na Igreja eu num vou?

Festa e vestido de noiva?

Deus me livre que num dou!”

.

E assim, não teve filhos

Nem bicho de estimação

“Eu que não gasto vintém

comprando angu e ração!

Eu não quero papagaio

não quero gato e nem cão!”

.

Também não quis amizades

Com medo de interesseiros

“Eu sei bem que esses “amigos”

só pensam no meu dinheiro!”

E assim ficou solitário

Sozinho no mundo inteiro

.

Virou as costas pra fé

Que é pra não gastar com vela

Pra não gastar energia

Nem assistia novela!

Não tinha prato nem copo

Comia numa tigela!

.

Descalço pra todo canto

Que é pra não gastar a sola

Não dava ajuda a ninguém

“Eu não sou de dar esmola!”

Não tinha bolsa nem mala

Andava com um sacola

.

Nem mesmo tinha carteira

Nem tinha conta no banco

Dizem que escondia o ouro

No solado de um tamanco

E o povo todo cantava

Num refrão de mote franco…

.

O Cabra nem se importava

Com a riqueza enrustida

Enchendo bucho de água

Pois mal comprava comida

Até que chegou a noite

Derradeira em sua vida

.

A Morte bateu à porta

Mas ele não atendeu

“Eu que não abro, não!

Maçaneta encareceu

se me solta um parafuso

prejudicado sou eu!”

.

A morte pede licença

Pois só pode entrar assim

É uma dama educada

Que só traz notícia ruim

Pôs a cara na janela

Pra ser atendida enfim

.

“Deus me livre, coisa ruim!

Vai de retro, indesejada!”

O mesquinho então gritou

Com a voz amedrontada

“Não devo nada a ninguém

nem ninguém me deve nada!”

.

A morte ficou estanque

Coisa de se admirar

Era ninguém dever nada

Nem ter nada para cobrar

E assim, a Caetana

Logo pôde averiguar

.

“O senhor deve ser pobre

é que o posso imaginar

essa casa é muito boa,

isso é possível notar

mas pergunto, onde é que sentas

sem cadeira e nem sofá?”

.

“Sento no chão, minha cara

tapete é pra ostentar”

A Morte  o entrevistou

“E a cama pra se deitar?”

“É uma esteira bem gasta

com jornal para forrar”

.

Depois de muito indagar

Descobriu toda verdade

“Avarento, mão-de-vaca

manicurto e sem vontade!

Vou é te levar agora

não importa a sua idade!”

.

A Foice levou homem

Sem ter ninguém pra velar

O que se leva da vida

É a vida que se levar

Não resta nada pra quem

Nunca soube o que é amar

.

A casa foi vasculhada

Mas o dinheiro sumiu

O tamanco, tão famoso,

Ninguém sabe, ninguém viu

Mas A Morte em sua folga

Uma assombração sentiu

.

O fantasma do avarento

Apareceu em um sonho

Arrependido ele estava

Por ser pão-duro e tacanho

Falou pra Morte onde estava

A fortuna sem tamanho

.

A Morte foi, caladinha

Para o local revelado

Fez da sua foice pá

No terreno acidentado

Que ficava atrás da casa

Do falecido amarrado

.

Lá encontrou a botija

Cheia de ouro e dinheiro

E uma caixa de sapato

Embrulhada por inteiro

E dentro o par de tamancos

Desses de assentar terreiro

.

A Morte ficou ricaça

E resolveu viajar

Saiu de férias uns dias

Fez farra pra festejar

Deu a volta pelo mundo

Em jato particular

.

Comprou mansão com piscina

E um castelo de rainha

Foi caviar com champanhe

Enchendo a sua pancinha

Comprou moto e jetsky

E uma Ferrari novinha

.

Emprestou e apostou

Passou cheque em doação

Comprou cavalo e fazenda

Obra de arte em leilão

Gastou cada um centavo

Até não sobrar tostão

.

Ao cabo de uma semana

Ao serviço retornava

Tendo gasto a tal fortuna

Pois ela nada poupava

Voltou toda sorridente

Todo mundo perguntava

.

“Fiquei rica e já gastei

e assim volto à minha lida

o destino do avarento

é a pena mais sofrida

pois sua herdeira é A Morte

eis a certeza da vida!”

.

Avarento moribundo

Sabe quando vai morrer

A Morte chega sambando

Pro cabra reconhecer

Vem batucando o tamanco

Pra todo mundo saber!

.

Por Mari Bigio, Janeiro de 2021.

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Cordel par Meditar – Um voo sobre o mar

Ilustração: Murilo Silva

Te convido a escutar
A beleza da poesia
Do encontro entre as palavras
Com encanto e a magia
Feche os olhos e desfrute
Qual fosse uma melodia…

Sente ou deite, confortável
Respire profundamente
Inspire puxando o ar
Solte vagarosamente
Deixe que o ar penetre
E acalme a sua mente

Inspire como quem sente
O cheiro de uma florzinha
Expire como quem sopra
A chama de uma velinha
Sinta a calma se instalar
E sigamos nessa linha

Imagine uma prainha
Com longa faixa de areia
Ao longe se ouve o canto
De uma mamãe baleia
Que no fundo do oceano
Com seu filhote passeia

As ondas batem nas pedras
Nos recifes de corais
E se espraiam nos seus pés
Lhes trazendo água e sais
Na ciranda das marés
Cheias de “vens” e “vais”

Na areia, muitas conchas
E barcos a descansar
O Sol já se despediu
A leve brisa a soprar
E o som de alguns passarinhos
Vai cessando devagar

Os grãos de areia nos pés
Fazem massagem gostosa
Ouça o barulho do mar
É uma voz melodiosa
Como a sereia que canta
Com sua cauda escamosa

A Lua chega, brilhosa
Demonstrando realeza
Seu reflexo nas águas
É de extrema singeleza
É Deus mostrando pra gente
Como é bela a Natureza

Os coqueiros se balançam
As folhas dançam no ar
Como fossem guardiões
Guardando a beira-do-mar
Os siris saem das tocas
E seu balé vêm mostrar

O Céu é azul escuro
Negro céu com seus encantos
As nuvens, muito macias
O recobrem com seu manto
As estrelas vêm surgindo
Cada uma no seu canto

As constelações se mostram
Diante do seu olhar
Continue respirando
Pro seu corpo relaxar
Imagine que no céu
Você começa a voar

Flutuando lá em cima
Tão leve como uma pena
As nuvens tocam seu rosto
A brisa sopra serena
Imagine este passeio
Com a sua mente plena

Veja o jardim celeste
Com estrelas cintilantes
Seus dedos tocam nos astros
Que desgastam pó brilhante
Deixe que a paz enfim
Seja a sua tripulante

Volte aos poucos, respirando
Como um barco que regressa
Aterrize de seu voo
Tranquilamente, sem pressa
Foi uma breve viagem
E que com o pouso cessa

De volta à praia outra vez
Vá nas areias pisando
Sinta os grãos por entre os dedos
Aos seus pés, massageando
O canto da mãe baleia
Já vai se distanciando

A sereia que nadava
Já se vai, submergir
E aos pouquinhos você pode
Os seus olhinhos abrir
Ou quem sabe até prefira
Sonhar mais, até dormir

Que a poesia embale o sonho
E o verso possa ecoar
Preenchendo o coração
De quem deixou-se levar
Pelas ondas das palavras
Do Cordel pra Meditar….

Por Mariane Bigio,
Agosto 2020

PARA OUVIR:
Cordel para Meditar – Soundcloud

PARA VER E OUVIR:
Cordel para Meditar – Youtube

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Coisa de avó e de avô

Por Mariane Bigio, Julho 2020

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Imagem de eommina por Pixabay

É mesmo coisa de avó
Aquele abraço dengoso
Bolo quentinho, no forno
E um cafezinho cheiroso

É mesmo coisa de avô
Conselho sábio e certeiro
Ter memórias pra contar
Dos tempos de marinheiro

É mesmo coisa de avó
A cantiga de Ninar
A cadeira de balanço
Com histórias pra embalar

É mesmo coisa de avô
Ter um relógio que brilha
Gostar de trens e de trilhos
E de brinquedo sem pilha

É mesmo coisa de avó
Fazer costura e bordado
Guardar tecido em retalhos
Pano de prato pintado

É mesmo coisa de avô
Gostar de jogo de bola
Sentado em sua poltrona
O som do ranger da mola

É mesmo coisa de avó
Fazer os gostos da gente
Fazer remédio caseiro
Cuidar de quem tá doente

É mesmo coisa de avô
Gostar de mato e de bicho
Ser careca ou bem grisalho
Ter bigode no capricho

É mesmo coisa de avó
Relembrar, ter nostalgias
Preocupações em excesso
Também criar teorias

É mesmo coisa de avô
Uns causos de mentirinha
Carro de lata, consertos
E um bom cochilo à tardinha

É mesmo coisa de avó
Caminhar de braço erguido
Hidro, dança de salão
Fazer pirão e cozido

É mesmo coisa de avô
Lava-a-jato na calçada
Um jogo de tabuleiro
Jornal, palavra-cruzada

É mesmo coisa de avó
Cuidar de planta, de flor
Ter cheiro bom, de colônia
E um colo cheio de amor

É mesmo coisa de avós
Encher de mimo e carinhos
“estragar” de tanto dengo
amar demais seus netinhos!

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De quem será esse ovo?

Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/Jozefm84-10215106/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4896509">Jozef Mikulcik</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4896509">Pixabay</a>Novo e de novo e de novo
De quem será esse ovo?

Um ovo de Jacaré
Que mora lá na lagoa?
Será ovo de pinguim?
Que é ave mas não voa?

Novo e de novo e de novo
De quem será esse ovo?

Ovo de tartaruga
Nossa amiga vagarosa
Um ovo de Sabiá
O que canta todo prosa

Novo e de novo e de novo
De quem será esse ovo?

Será um ovo de cobra
venenosa… credo em cruz!
Ave grande, bota ovo
Será ovo de avestruz?

Novo e de novo e de novo
De quem será esse ovo?

Um ovo de dinossauro
Que há muito foi extinto?
Ou ovo de carcará
Pássaro bravo e tão faminto?

Novo e de novo e de novo
De quem será esse ovo?

Tanto bicho bota ovo
Tanto ovo vira bicho
A natureza nos mostra
A singeleza e o capricho

Mas o quê? O que é isso?
Está vindo, o filhotinho…
Tá nascendo, vai nascer…
Já nasceu: É um pintinho!

Novo e de novo e de novo
É da galinha esse ovo!

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A Saga de Zé do Cano Contra o Coronavírus – Cordel Ambiental

Texto de Espetáculo “A Saga de Zé do Cano contra o Coronavírus”, da BRK Ambiental, escrito em cordel por Mariane Bigio, permeado por paródias e músicas.

Captura de Tela 2020-06-04 às 12.40.02

Alô, alô criançada
E adultos deste lugar
Hoje trago uma mensagem
Num cordel eu vou narrar
A saga de Zé do Cano
Que não é um ser humano
Mas tem muito a ensinar!

Zé do Cano é um herói
que nunca nos abandona
e contra os vilões do esgoto
o Zé do Cano detona!
Precisamos ajudar
Hoje vamos recrutar
Mais heróis contra o Corona!

Nessa nossa maratona
Enfrentamos um vilão
Invisível aos nossos olhos
Mas que é muito sabichão
Que nos faz adoecer
Nós precisamos vencer
Por isso muita atenção:

O remédio é prevenção
É a força que nos move
Ei meninos e meninas
Cuja alegria comove!
Precisamos de vocês
Para eliminar de vez
a COVID-19!

Precisamos que os abraços
Aperto de mão, beijinho
Por hora fiquem guardados
Pois são o principal caminho
Para o vírus se espalhar
Assim vamos demonstrar
De outro jeito este carinho

Paródia 1

Terezinha de Jesus
Preferiu não dar a mão
Por enquanto cavalheiro
Só terás meu coração

Da laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
O carinho mais seguro
É sem beijo e sem abraço

E seguindo esta cantiga
Há reforço inteligente
Mais heróis que nos ajudam
Atuando nesta frente
Um deles sai da torneira
Zé responde de primeira:
É a água minha gente!

Uma heroína potente
Enfrenta muitas doenças
Mas temos que cuidar dela
Pra que o Corona não vença!
Sempre economizar
Pra que não venha a faltar
Pois água não se dispensa!

Há vilões em desavença
Vivem criando cilada
Ferindo o meio-ambiente
E a agua, nossa aliada
São eles vilões do esgoto
Deixam a rede arruinada!

Pra gente não dar mancada
Nesse tempo em quarentena
Fique atento, fique atenta
Pois a lição vale a pena
Cada lixo em seu destino
Pra não haver desatino
Pra nossa vida ser plena!

Os vilões do esgotamento
Nós iremos te mostrar
Fio Dental vai pro lixo
Depois que você usar
O Papel, o Absorvente
Não há descarga que aguente
O lixeiro é seu lugar!

Também no lixo jogar
A fraldinha descartável
Ao ajudar a mamãe
De maneira muito amável
Raspe o Resto de Comida
Lixo biodegradável

Assim é mais agradável
lavar a louça todinha
e muita atenção ao vilão
que é o óleo de cozinha!
Deve ir pra reciclagem
É assim que os heróis agem
Qual faz a borboletinha!

Paródia 2
Borboletinha
O óleo de cozinha
É descartado
Numa garrafinha

Poti poti
Faz muito mal
Jogar no ralo
Não é legal!

Também pelo ralo escapa
Outro vilão horroroso
Depois do banho, o Cabelo
Sai limpinho e bem cheiroso
Os fios que se soltaram
Lá no ralo acumularam
Virando um monstro seboso!

Outra vilã atrevida
Que também é perigosa
É a EMBALAGEM PLÁSTICA
Pequenina ou volumosa
Vai pro lixo, com certeza
Não polui a natureza
Nem a água preciosa

Assim você colabora
E o ciclo da Água flui
A Heroína ganha forças
Quando a gente não polui
Há outros heróis chegando
Zé do Cano Vem mostrando
Com a gente contribui

Ele é famoso demais
No combate ao tal vilão
Junto com água faz dupla
Para a nossa proteção
Tem no banheiro da gente
Não tem corona que aguente
Água junto com o SABÃO!

Paródia 3

O Sapo não lava a mão
Que falta de educação
Em tempos de quarentena
Só vale à pena a prevenção

Tem que lavar bem direito
Vinte a trinta segundinhos
Com espuma até o punho
E também entre os dedinhos
Das unhas nunca se esqueça
Sujeira desapareça
Nos deixando bem limpinhos!

E se não der pra lavar?
Se a água estiver faltando?
Temos um outro aliado
Para chegar completando
Este time de reforço
Pois vale qualquer esforço
Pra gente seguir ganhando

Quem é ele, amigo Zé?
Ele anda muito importante
Conheçam o Álcool Gel
Nosso coadjuvante
Pois ele vem pra salvar
Se a água ou sabão faltar
Pra gente seguir , avante!

E assim vamos ampliar
Nossa trincheira durona!
Nossa batalha é em casa
Pro vírus não ter carona
Da higiene cuidando
E água economizando
Na luta contra o Corona!

Quero a todos convidar
Para seguir este plano
Juntando-se a este time
sem se esquecer por engano
um vilão sempre destrói
você pode ser herói
juntando-se ao Zé do Cano!

Música Tema:

(Refrão)
Preste atenção Adulto
Preste atenção Criança
Faça parte deste time
Que defende a esperança!

Nós viemos recrutar
Os meninos, e meninas
Assim como Zé do Cano
São heróis e heroínas

Também vamos batalhar
Coronavírus vencer
E pra isso acontecer
Vocês podem ajudar

Suas mãos sempre lavar
Usando água e sabão
Ficando em casa, brincando
Cantando esta canção

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