Te convido a escutar A beleza da poesia Do encontro entre as palavras Com encanto e a magia Feche os olhos e desfrute Qual fosse uma melodia…
Sente ou deite, confortável Respire profundamente Inspire puxando o ar Solte vagarosamente Deixe que o ar penetre E repouse a sua mente
Inspire como quem sente Um balão se encher de ar Expire como se fosse Ao balão esvaziar Deixe que o ar preencha Ocupando o seu lugar
Comece a imaginar O crepúsculo iminente Vendo o céu que se transmuta Se tornando diferente Mesclando cores e nuvens Sol em adeus, no poente
Você vê do seu alpendre As aves em retirada O Sabiá se despede Retornando pra ninhada A sinfonia do sono No bico da passarada
Uma brisa de invernia Sopra em leveza soturna O sereno introduz a noite Morcegos voam na furna E o Gato-do-mato espia Essa paisagem noturna
O sopro por entre arbustos Traz sonoro sibilar As pedras cantam imóveis E a Coruja vem pousar Piando sobre uma cerca Pra começar a caçar
A noite torna-se densa E as estrelas fazem festa Pois o luar do sertão Não tem beleza modesta Calangos e Saruês Acordam de sua Sesta
O açude espelhando o céu Ao longe imóvel parece O sino da igreja toca Distante ‘inda permanece O Som da tranquilidade Lhe toma em forma de prece
Outras árvores balançam Leve coreografia A lua brilha minguante Vênus a estrela guia O terreiro está imóvel O silêncio é poesia
Eis que uma estrela cadente Desenha o céu num piscar Deixando um rastro nas nuvens Que passam a emoldurar A lua e constelações Espalhadas pelo ar
A Magia da Caatinga É qual outra dimensão Em que o tempo é contado Com ajuda da lentidão Névoa se esparrama em véu Por sobre a escuridão
Neste quadro de penumbra A mariposa reluz Com asas em furta-cor Buscando nesga de luz Voa junto ao lampião Que um transeunte conduz
E pra completar a cena O belo desabrochar Dos Mandacarus floridos De brancura similar Qual fossem alvas estrelas Que escolheram despencar
São flores vivas à noite Que na Aurora irão fechar Guardando enfim o segredo Que a gente teima em contar Que o sertão é encantado Só nos basta apreciar
Siga nesse balançar Caso escolha adormecer Saiba que o mistério envolve A quem pôde conhecer A Caatinga bem de perto Da noite ao alvorecer
Que a poesia embale o sonho E o verso possa ecoar Preenchendo o coração De quem deixou-se levar Na magia das palavras Do Cordel pra Meditar.
Era uma certa vez Uma bonita princesa Filha de um Rei corajoso E digno da realeza Sua mãe, uma Rainha Também cheia de beleza!
Seu pai tinha uma certeza Sua filha preciosa Tinha nos olhos magia Magia bem poderosa! De transformar o que é triste Em coisa maravilhosa
A tal princesa formosa Na Natureza vivia Brincava com passarinhos Com flores se divertia O rugido do Leão Era pra ela canção Carregada de energia
A menina todo dia Punha seu belo vestido Com brilho e bastante cor Laço de fita e tecido Ouvindo som de tambor Dançava cheia de amor Seu batuque preferido
O tum-‐tum-‐tum era ouvido Sempre nos dias de festa Quando nascia um bebê Ou pros deuses da floresta E até quando alguém morria Pois todo mundo sabia Que o Céu é o que nos resta
Com a coroa na testa A princesa se deitou Acordou com gritaria De salto se levantou Fogo queimava na mata Logo, logo se alastrou
Lá de longe ela avistou Seu povo sendo refém Até o Rei fora preso Não restaria ninguém Ela então saiu correndo E foi logo se escondendo Pra não ser presa também
Em Navios, muito além Lá na praia ancorados O seu povo, a sua corte E seus pais foram levados Sumiram no horizonte E lá do alto do monte Muito choro derramado
Com o coração apertado A princesa foi à mata E pediu para morrer Pois a saudade maltrata Com duas mãos agarrada Numa árvore sagrada
Chorou lágrimas de prata E a magia foi exata Do jeito que o Rei falou Quando a lágrima caiu E solo se encharcou A árvore abriu a boca E com voz rouca falou:
“O teu pai te abençoou Tens a magia divina Se hoje você chorou Não vais mais chorar, menina!
E um dia tua sina É viver um carnaval A potência feminina Vai enfrentar todo mal!
Serás Calunga real Uma boneca encantada O cortejo imperial Fará pra ti batucada!”
Ê calunga, minha princesa A boneca levantada Ê Calunga, minha princesa Coroando a Batucada
E o batuque que a princesa Se alegrava ao escutar Tocou forte no seu peito Fazendo o choro parar A tristeza foi embora E a alegria agora Chegava para ficar
Começou se transformar Numa boneca de cera Calunga negra e bonita Também feita de madeira Que até hoje é levantada Vem reinando a batucada E da corte é a primeira!
Do dia de Zé Pereira Até o fim da folia Quando tem Maracatu Alfaias em euforia Lá vem aquela princesa Que não perde a realeza E nos enche de alegria
O ritmo contagia Faz todo mundo dançar Maracatu vem de África Veio nas ondas do mar Princesa virou Rainha E a sua alma inteirinha Vive a sorrir e cantar
Mentira tem perna curta Não devemos mentir não! Sempre que a gente mente Vira a maior confusão Vou contar-lhes uma história De Chicó e de João….
Joao Grilo era um menino Franzino como ele só Chicó o seu grande amigo Mentia que dava nó O Grilo sempre ajudava E a mentira acobertava Pois sentia muito dó
Um belo dia Chicó Chegou com conversa ruim Como era de costume Os causos do jovenzin Sempre acabam com “num sei, eu só sei que foi assim”
Ele contou que sabia Falar o melhor Latim Contou história da Bíblia Falou de Abel e Caim “Onde tu aprendeu?” – “Num sei eu só sei que foi assim”
“Eu já corri essas terras Atrás de um alecrim Encontrei um reluzente Feito de ouro purin” O povo disse: “valei! E cadê então?” – “Num sei eu só sei que foi assim”
O povo desconfiado E Chicó feito arlequim Igual um bobo da corte Dizendo graça sem fim E pra tudo era “num sei eu só sei que foi assim”
João grilo quase pula Pra se safar de finin Pois viu que pro lado deles A coisa já tava ruim De novo Chicó “num sei eu só sei que foi assim!”
“Conheci uma princesa Formosa feito um jasmim Perguntou se eu era príncipe E se apaixonou por mim” “E cadê ela?” – “Num sei eu só sei que foi assim”
Alguém do povo lembrou Que Chicó tava devendo “Pague logo meu dinheiro pode ir me devolvendo” E João Grilo perguntou: “O que está acontecendo?”
O homem disse: “Chicó disse que eu ficava rico se dinheiro lhe emprestasse que só precisava um tico que ele ia transformar os cifrões multiplicar eita ideia de jirico!”
João pediu emprestado E ali pegou uma nota Desenhou em cima dela Tramou mais uma lorota Entregou-lhe o dinheiro: “Toma aqui, seu pirangueiro!” E causou-se a revolta!
A nota era de um real Grilo desenhou três zeros Mudou o nome pra mil Pense num lero-lero! O homem se enfureceu E atrás dos dois correu Foi pernas pra quê te quero!
Em um outro vilarejo Pras bandas do sertãozin Chicó narrou: “eu já vi o dia que um realzin virou mil, que eu contei” “Mostre a gente!” – “Eu num sei, eu só sei que foi assim!”
Viviam Grilo e Chicó Rodando o mundo inteirin Muita gente via graça Ria mesmo achando ruim E essa história que criei Se foi verdade… num sei, Eu só sei que foi assim!
Te convido a escutar A beleza da poesia Do encontro entre as palavras Com encanto e a magia Feche os olhos e desfrute Qual fosse uma melodia…
Sente ou deite, confortável Respire profundamente Inspire puxando o ar Solte vagarosamente Deixe que o ar penetre E repouse a sua mente
Inspire como quem sente Um balão se encher de ar Expire como se fosse Ao balão esvaziar Deixe que o ar preencha Ocupando o seu lugar
Comece a imaginar Um rio, desde a nascente Um fino fio de água Que brota timidamente Como lágrima da terra Vai jorrando, displicente
O fio seguindo em frente Cada vez mais encorpado Vai virando um riachinho No terreno acidentado Há muitas plantas nas margens O Sol deixa o ar dourado
Vai ficando acelerado Com uma certa correnteza As margens já mais distantes Têm florestas, que riqueza! São árvores bem frondosas Carregadas de beleza
O cheiro é de natureza Aquele cheiro molhado De terra úmida e fresca De mato aromatizado O barulhinho da água Toca no rio encantado
Alguns bichos, com cuidado Bebem água na beirada Alguns peixes nadam breves Nesta água adocicada Que vai ficando mais densa E bem mais aprofundada
Muitas pedras reveladas Um abismo se aproxima O som fica mais potente O Sol à pino de cima Eis que surge a queda-d’água Completando a obra-prima
A água cai, lá de cima Com força e voracidade É uma linda cachoeira.. Por conta da claridade Um arco-íris se forma Num prisma de majestade
As gotículas, em verdade Parecem denso vapor Recaindo sobre as folhas Amenizando o calor Refletindo a luz solar Revelando cada cor…
Depois do enorme furor Do rio que fez o salto Uma bacia de água Recebe o que vem do alto Tem pureza cristalina Que nestas rimas ressalto
Uma garça vem, de assalto E leva um peixe no bico Ouvimos na mata, ao longe O assovio de um mico Minúsculas rãs coloridas Sobre as pedras… limo e visco
Tal cenário belo e rico Pede um mergulho profundo Vá descendo e aproveite Toque a lama, lá no fundo E ao voltar à superfície Abra os olhos num segundo
Este momento fecundo Foi bonito de sentir Bem aos poucos, vá voltando Respirando ao emergir Sentindo seu corpo leve Sentindo o sangue fluir
Você pôde usufruir Do rio que corta os vales Em seu leito vá boiando Depois levante e se instale Na margem, na calmaria Seque ao calor do dia E deixe que o rio fale
Que a poesia ao sonho embale E o verso possa ecoar Preenchendo o coração De quem deixou-se levar Pelo fluir das palavras Do Cordel pra Meditar.
E num é que eu fui convidada para celebrar o noivado de dois Bonecos Gigantes de Olinda? Pense numa honra… enoooorme! Lógico que escrevi o texto da cerimônia todo em cordel… viva os noivos!
Com licença minha gente Permitam me apresentar Eu me chamo Mari Bigio Sobrenome de além-mar Nasci pra contar histórias Inventadas ou memórias Da Poesia Popular
Hoje quero destacar Honraria sem igual De estar festejando o Frevo Em seu Dia Nacional E o peito chega estufado De celebrar um noivado Pra lá de fenomenal!
E o mais sensacional Neste espaço de Magia: Sublime Paço do Frevo! Vou usar da poesia Pois farei tudo em Cordel Cumprindo assim meu papel De versejar alegria
Sentimento de euforia Como fosse carnaval Nos toma no entardecer Deste dia passional Vou contar a breve história E resgatar a memória De um encontro magistral
Ele é herdeiro legal De uma entidade sagrada Do Homem da Meia-Noite Rei da cidade encantada Nosso Calunga Gigante Dos bonecos comandante Da Olinda abençoada
E da sua enamorada De chiqueza e maestria A mãe do noivo é somente A diva Mulher do Dia Eis o Menino da Tarde Batam palmas com alarde Que o noivo tem fidalguia!
Este príncipe da folia Ernane Lopes criou Pra construir o boneco Sivlio Botelho aliou Talento, imaginação Recriando a tradição Que a gente reverencia
E este noivo, quem diria Mesmo assim sendo menino Tem quase cinquenta anos Com o rosto liso e fino E com seu fraque tão raro Agita o Largo do Amparo No período vespertino
Pois assim quis o destino: Paquera entre as ladeiras E o Menino apaixonou-se Dessas paixões bem certeiras A Vaidosa lá no alto Uma gigante de salto Entre as copas das mangueiras
Nestas rimas lisonjeiras Da noiva já vou falar Edimilson Nascimento Criou para desfilar Esta boneca estilosa Aplausos para A Vaidosa A noiva espetacular!
Há pérolas no seu colar E o sorriso contagia Usa piercing no umbigo Tem a silhueta esguia De fibra… de vidro feita Ela só não é perfeita Pois já não existiria
A Vaidosa se recria Mestre Camarão assina Representa a liberdade E a potência feminina E nossos múltiplos dons Mechas em diversos tons Ousadia que fascina
É da cintura pra cima Que eles chamam atenção Mas um gigante só vive Com alguém na condução Pois mesmo os seus condutores Perceberam os tremores Daquela enorme atração
E os pés saltaram do chão Em tesoura e dobradiça Parafuso e o ferrolho Que à circulação atiça As mãos girando e rodando Os dois enormes dançando [Ferver tem essa premissa]
O Coração quase enguiça Quando o olhar sedutor Que o Menino lhe lançou A fez sentir um torpor A Vaidosa, de repente Viu brotar uma semente A raiz de um grande amor
Em meio a este furor Que nos deu de pronto a pista Ficou evidente o flerte E um clima de conquista Entre os nossos dois gigantes De corações palpitantes E um desejo otimista
Paixão à primeira vista Para sempre nos lembrar Que o afeto é o sentimento Que é capaz de nos salvar Do tal ódio intolerante Que todo amor é gigante Qual toda forma de amar!
Quando em Olinda chegar O dia do casamento Já tem buquê pra levar Com a bênção e unguento Do nosso Bloco das Flores Que engrandece com louvores Este fabuloso evento
E assim, neste momento Outras bênçãos agradeço Maestros Carlos e Oséas Grandes mestres que enalteço E às troças e seus brincantes São por demais importantes Nestes versos reconheço
E eu também não me esqueço De evocar todo o sagrado Energias, entidades Pra abençoar o noivado Em pleno Recife Antigo Que Gigante pede abrigo Num pé de verso rimado
Que o Amor aqui celebrado Nos sirva de inspiração Quando o Menino da Tarde Ficou noivo em união Com a vibrante Vaidosa E a poesia fez a prosa Com candência de canção
Que esta comemoração De afeto em alto relevo Seja o ecoar de um Clarim Bravo, sonoro e longevo Um viva ao amor Gigante Viva o folião brincante! Viva o Carnaval e o Frevo!
Em Sousa na Paraíba Bem no Sertão Nordestino Há um Sítio Arqueológico Debaixo do Sol à pino Com gigantescas pegadas Por dinossauros deixadas Os Jurássicos inquilinos…
Várias espécies de Dinos Passearam no Sertão Isso foi há muito tempo Bem antes de Lampião! Milhões de anos atrás Hoje não vivem mais Pois entraram em extinção
Mas houve uma ocasião Há alguns anos passados Antes de alguém estudar Os vestígios encontrados Que naquela região Um caso de assombração Deixou todos alarmados!
O mistério foi lançado Numa noite de luar Enquanto o povo dormia O chão pareceu vibrar Era como se um gigante De passo nada elegante Quisesse se aproximar
Quem não queria escutar Sentia a terra tremer! A cada passo que o monstro Parecia percorrer As louças todas quebravam As panelas despencavam Era grande o seu poder!
Quando o Sol vinha nascer Na feira da região Não falavam de outra coisa Que não fosse a assombração Uma criança apontou: “Olha o Boi que ele matou!” Tava feita a confusão!
Estirada pelo chão Encontrava-se a carcaça De um Boi que era valente Mas que à noite virou caça Da fera misteriosa Certamente monstruosa De desconhecida raça
Piorou toda a desgraça Quando viram as pegadas Que pelo monstro assombroso Teriam sido deixadas O Padre foi convidado E no buraco pisado Água Benta derramada!
Uma mocinha intrigada Passou toda a noite em claro A menina Teodora Pra aventura tinha faro Depois de uma longa espera Sentiu os passos da fera Saiu sem nenhum amparo
No céu um Luar tão raro Como há muito não se via E Teodora adentrou Num espaço de magia Pois a noite do Sertão É uma outra dimensão Carregada de energia…
A menina se escondia Entra as plantas se esgueirava Foi quando sentiu enfim Que o monstro se aproximava Quase lhe faltou coragem Quando o bicho abriu passagem Ela mal acreditava!
O monstrengo passeava Pisando a mesma pegada Que ali bem naquele chão Havia sido deixada Suas patas encaixavam Nas marcas que ali estavam Numa rota compassada
Era a assustadora ossada De um bicho que foi extinto! Esqueleto gigantesco De um Dinossauro faminto Talvez um Tiranossauro Mais feroz que o Minotauro A julgar por seu instinto!
A Caatinga é labirinto E a menina viu-se presa Tentou achar a saída Mas já não tinha certeza Num gravetinho pisou O Dinossauro escutou E virou-se com brabeza!
Teodora com destreza Correu com velocidade O esqueleto a perseguia Com muita voracidade E Teodora ofegante Se esquivava do gigante Com todo esforço e vontade
Pra sua felicidade O monstro se atrapalhou Pisou fora das pegadas E se desequilibrou A queda foi estrondosa E aquela ossada horrorosa De pronto se desmontou!
O encantamento quebrou O esqueleto virou pó Teodora foi dormir Co’ a cabeça dando nó Não sabia se foi sonho O Dinossauro medonho Que encontrou estando só
De manhã, um quiproquó Tomou conta do lugar “Será que foi terremoto” Um se pôs a perguntar O estrondo da madrugada Maior que noite passada Tinha dado o que falar!
Teodora foi buscar Uma pista no local Do encontro com a fera Que quase lhe fez um mal Procurava novidade Provando a realidade De algo sobrenatural
Na pegada colossal Percebeu rastro recente Tocou dentro do buraco O solo ‘inda úmido e quente E para sua surpresa Quando olhou com mais clareza Avistou um grande dente!
Teodora estava crente! Realmente aconteceu! Não foi só um pesadelo De quem logo adormeceu Do dente fez um colar Então resolveu guardar Como um amuleto seu
A menininha cresceu Se formou pesquisadora Mas não conta pra ninguém Sobre a noite assustadora Em que a ossada ambulante A perseguiu vacilante Com ânsia devoradora Teodora exploradora
Voltou à terra natal Hoje estuda as tais pegadas Do dinossauro ancestral Que a Terra não mais habita Mas lhe fez uma visita De maneira surreal!
O encontro fenomenal Parece coisa impossível Mas quem viveu essas noites Sentindo o tremor terrível Do monstro da pré-história Guarda como notória A lembrança inesquecível!
Vi mocinha, não me esqueço Papai voltando da roça Com as espigas furadas Pendendo de uma carroça – Ái que essa passarada tá comilona e danada e assim não há quem possa!
Ele exclamou: – Minha Nossa! quase que não sobra nada! bicaram meu milharal partiram em revoada valei-me meu São João vou mudar a plantação pro outro lado da estrada!
E eu fiquei preocupada Me vi querendo ajudar Foi quando tive uma ideia Fui depressa executar Fui fazer um espantalho Com palha, tecido e galho Estopa pra completar
Antes de finalizar Já fiquei desanimada – Um boneco assim, pequeno não vai servir para nada! Meu irmão disse, bem chato Mas o seu dito era um fato E ouvindo fiquei calada
Terminei minha empreitada Fiz a boca com a linha Coloquei um chapéuzinho Decorado com florzinha Uma camisa xadrez Imaginem só, vocês Que coisa mais bonitinha!
Pois pra roça ele não foi Não teria serventia Olhei pra ele tristonha Deu trabalho, quem diria Não queria botar fora Foi aí, que nessa hora Ouvi uma gritaria…
– Não joga fora, Maria! Minha priminha berrava. – Esse bonequinho lindo! A pequena se agitava – Pra ele eu já tenho um plano minha Boneca de Pano há muito um par precisava
E a bonequinha trajava Um belo laço de fita Um vestidinho estampado Todo feito com a chita Com coração de algodão Fora costurada à mão Era simples e bonita
E a pequena disse aflita: – Nunca achei um par decente os bonecos dos heróis não servem pra pretendente não são nada maleáveis fortalhões irresponsáveis rijos excessivamente
e não acho pertinente os bonecos de sucata costumam enferrujar se forem feitos de lata reciclados noutra peça pra brincar é bom à beça mas preciso ser sensata
minha boneca é a nata de um antiga tradição foi feita por nossa avó preciso ter atenção esse espantalho é perfeito pois vejo, que pelo jeito foi feito com o coração
você pôs dedicação produziu com maestria pensou que esse miudinho a colheita salvaria foi nobre a sua intenção e peço a sua benção pr’essa união de alegria!
Foi assim, naquele dia Que um ofício conheci: Eu me formei bonequeira! Nunca mais eu esqueci Do espantalho pequeno Com seu semblante sereno Que com carinho cerzi
Não acaba por aqui Pois também sou costureira Fiz o véuzinho de noiva Da bonequinha faceira Que era feita de pano Depois que passou um ano Minha fama foi certeira
E assim a cidade inteira Me encomendava vestidos Casei bonecas e gente Cortei panos bem cumpridos Fui tecendo a minha lida E hoje sou feliz da vida E ainda atendo pedidos
Meus primos todos crescidos Brinquedos encaixotados Mas a boneca de pano E o espantalho adorado Minha prima pôs no altar Pra gente sempre lembrar: O amor é um lindo bordado!
Mari Bigio, Março de 2025
Para casar com o texto ouça a canção “A Moda da Boneca de Pano”, de Mari Bigio: