Cordel da Gratidão

Gratidão é uma palavra
Que expressa um sentimento
Uma alegria que invade
Nos toma por um momento
Quando alguém nos faz o bem
Nos dá carinho ou alento
.
Gratidão não anda só
Gosta de retribuir
Nós sentimos e queremos
Fazer o outro sentir
Se nós estamos felizes
Queremos fazer sorrir
.
Gratidão é prima-irmã
Da bela e gentil bondade
Um trevo de quatro folhas
Que muda a realidade
Que é condutora da paz
Porta-voz da humildade
.
Já vi nascer em um muro
Em meio a tanta dureza
Do concreto, do cimento
Um ramo de natureza
Nesse mesmo muro eu li
Um verso de gentileza
.
Gratidão pode ser simples
Não precisa complicar
Podemos agradecer
Tudo que a vida nos dá
Mas pra isso precisamos
Nossa cuca transformar
.
O óculos da gratidão
Todo mundo deve ter
Ele corrige a visão
Nos fazendo perceber
Que em todo canto há presentes
Para a gente agradecer
.
Se a gente olha o almoço
Não vê nada especial
Mas o óculos nos mostra
Um banquete sem igual
Preparado com carinho
Com sabor sensacional
.
Nossa cama, sem o óculos
Não tem nada diferente
Mas ajuste o seu olhar
Enxergue com outra lente
O descanso revigora
E o sonho é filme envolvente!
.
Como é bom poder sonhar
E brincar com a fantasia
Agradeça ao acordar
Pois nasceu um novo dia
Tantas possibilidades
Diga obrigado e sorria…
.
O carinho, e o amor!
O brinquedo e a comida
O colchão, o travesseiro
Nossa canção preferida
Os amigos… a família!
A saúde… a nossa vida!
.
Obrigado, obrigada
Pelas flores no jardim
Pela chuva, o arco-íris
E a noite que chega enfim
Trazendo a lua, as estrelas
Disposta no céu sem fim
.
Agradeço pelos livros
E a escola que me ensina
Sou grato por ser criança
Por ser menino ou menina
Pela imaginação
Que me encanta e me fascina
.
Pelo cheiro de pipoca
E a fruta doce e gostosa
Mesmo sendo pequeninas
As coisas são grandiosas
Com o óculos da gratidão
A vida é maravilhosa
.
E se eu cair? Me chateio!
Mas agradeço o remédio
Só sei que bom viajar
Se eu já conheci o tédio
Agradeço a minha casa
Mesmo que se chame prédio
.
Agradecer nos faz bem
E nos traz satisfação
Agradeço cada letra
Da palavra gratidão
O óculos que nos permite
Enxergar com o coração!
.

Mariane Bigio, durante a Quarentena de 2020.

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Uma Menina Vestida de Jardim – Cordel para Crianças

Uma menina vestida de jardim

Sitio Formoso era lindo

Feito o nome já dizia

Lá morava uma menina

O seu nome era Maria

O mesmo nome da avó

Da mãe e também da tia

 

Por haver tanta Maria

Pra ninguém se aborrecer

Ela ganhou mais um nome

Logo depois de nascer

Tornou-se Maria Flor

E assim pôs-se a crescer

 

O jardim a florescer

A primavera chegou!

Correu notícia no sítio

Rebuliço se instalou

“Vai ter baile e muita dança

o vizinho convidou!”

 

Cada moça procurou

uma roupa pra usar

Maria Flor foi correndo

No seu baú foi buscar

Escolheu um vestidinho

O mais bonito que há!

 

Mas ao experimentar

O vestido não cabia!

Essa Flor cresceu tão rápido

Coitadinha da Maria!

Provou, abriu, não fechou

Nenhuma roupa servia!

 

Uma prima lhe acudia:

“Esse aqui pode ser seu

Já não cabe mais em mim

Já não pode mais ser meu”

Maria pegou o vestido

E à prima agradeceu

 

A menina entristeceu

Queria roupa novinha!

Algo bem diferente

Com detalhes na bainha

Com gola, manga e botão

Babado, laço e fitinha

 

Foi chegando a noitinha

Família toda animada

Só Maria, cabisbaixa

Num cantinho, encostada

Mas quando chegou na festa

Ficou logo deslumbrada!

 

A casa bem decorada

O jardim muito bonito!

Aliás, em todo o sítio

Foi seu canto favorito

Sentou-se ali, entre as plantas

Ficando longe do agito

 

Quando ouviu barulho aflito:

“Que cara é essa querida”

perguntou-lhe uma cigarra

pousada na margarida

Maria Flor respondeu:

Estou muito mal vestida!”

 

E com cara de sofrida

a menina prosseguiu:

Este vestido é usado

Porque outro não serviu

Está grande e desbotado

Não sei se a senhora viu…”

 

E a cigarra fez: “psiu!

Eu posso te ajudar!

Vou chamar alguns amigos

Sua roupa incrementar

Você já é tão bonita

E mais bela irá ficar!”

 

Flor não quis acreditar

Mas a cigarra chamou

A mais linda borboleta

Que em seu colo repousou

“Quer broche melhor que esse?”

A cigarra perguntou

 

E ela então continuou

“Que venham as joaninhas!”

De cima a baixo da roupa

Fizeram fila retinha

“Estes são os seus botões,

mas podem fazer cosquinha!”

 

A astuta cigarrinha

Muitas flores contratou

A papoula bem frondosa

Em mangas se transformou

Cada pétala de rosa

A cigarra costurou

 

Com o fio que sobrou

De uma teia da aranha

Fez assim uma bainha

De beleza tão tamanha

E ainda completou

“Tem alguma coisa estranha…”

 

“Margarida, não se acanha!

É você que está faltando!”

A flor branca e amarela

Foi de pronto se instalando

Nos cabelos de Maria

Que estava adorando!

 

Uma planta se arrastando

Dessas feito trepadeira

Agarrou-se na cintura

E enrolou-se por inteira

A cigarra agradeceu:

Bem-vinda, dona Parreira!

 

Centopéia, bem faceira

Veio quase tropeçando

Subiu até lá em cima

Foi na gola se instalando

Parecia um colar

Com muitas contas brilhando

 

Maria se viu dançando

Não podia acreditar!

Nunca vestiu-se assim

Nunca de imaginar

Quase beijou a cigarra

Que falou pra não cantar:

 

Vá depressa aproveitar

 na festa se entreter

e quando tudo acabar

venha logo devolver

cada coisa pro seu canto

pro jardim poder viver”

 

Maria então foi fazer

O que a cigarra mandou

Se divertiu como nunca!

Todo mundo elogiou

O vestido mais bonito

Que ninguém jamais usou

 

E quem foi que costurou?

Todo mundo perguntava

Maria contava tudo

Mas ninguém acreditava

Ela estava tão feliz

Que pros outros nem ligava!

 

Maria contagiava

Todos com sua alegria

E já nem se importava

Com a roupa que vestia

Assim voltou ao jardim

Onde a cigarra vivia

 

Ali desfez a magia

A todos agradeceu

Cada coisa em seu lugar

A menina devolveu

Voltou com vestido velho

Só que ninguém percebeu!

 

E o dia amanheceu

A festa teve seu fim

Maria Flor florescia!

Terminou feliz assim

A história da menina

Que vestiu-se de jardim!

 

Mariane Bigio, Recife, 07/06/14

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A Dona Baratinha em Cordel

A DONA BARATINHA EM CORDEL
– por Mariane Bigio

Assim se conta a história
Da formosa Baratinha
Muito vaidosa levava
No cabelo uma fitinha
Sua casa era cheirosa
Arrumada e bem limpinha

Pois a dona Baratinha
Foi limpar o seu terreiro
Capinou todo o capim
Que o cobria por inteiro
E encontrou uma caixinha
Muito cheia de dinheiro!

A notícia bem ligeiro
Se espalhou pelo Sertão
Logo veio um pretendente
Conquistar seu coração
Era o Boi, muito faceiro
Chegou cantando a canção

O Boizinho quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Meu mugido é muito alto
E dura a noite inteirinha!

Mas a dona Baratinha
Achou o “muuu” estridente
E decidiu esperar
Por um novo pretendente
Foi quando veio o Jumento
Relinchando bem contente

O Jumento quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Eu relincho o tempo todo
Qual alarme ou campainha!

A Barata, coitadinha
Até teve dor de ouvido
Disse “não” ao tal Jumento
Que empacou enraivecido
Em seguida veio o Bode
Muito sério e bem vestido

O Bode quer se casar
Com a Dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
O meu berro é imponente
Acorda galo e galinha!

Enjoada e cansadinha
A Barata dispensou
O Bode que foi berrando
E que nunca mais voltou
Então veio o Carcará
Que na janela pousou

O Carcará quer casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Dou um grito assustador
De arrepiar a espinha!

A Barata qual rainha
Despediu-se impaciente
Da tal ave de rapina
Agressiva e saliente
Que deu espaço ao Preá
Chegando todo envolvente…

O Preá quer se casar
Com a dona Baratinha
Que tem fita no cabelo
E dinheiro na caixinha!
Sou discreto e silencioso
Minha voz é bem fininha…

E a dona Baratinha
Finalmente amoleceu!
Deu sua mão ao Preá
E o noivado aconteceu
O casório foi marcado
Quando o dia amanheceu

E quando o sino bateu
O Preá tinha sumido
Que será que aconteceu?
Haveria desistido?
A Barata ficou triste
E chorou sobre o vestido

Um vexame acontecido
Coisa pior não há
As galinhas tinham feito
Um gostoso mungunzá
E quando foram comer
Lá dentro estava o Preá

Baratinha fez “buááá”
Choradeira inconsolável
O Preá se parecia
Muito quieto e amável
Mas era muito guloso
E teve um fim lamentável

Agiu muito irresponsável
Atacando a refeição
Que ali seria servida
Durante a recepção
Se atrapalhou e caiu
Se afogou no caldeirão

Pra acalmar o coração
Da noivinha entristecida
Cacarejou a Galinha
Sua amiga tão querida
“É melhor viver sozinha
Do que ser triste na vida!”

“Essa atitude atrevida
Do infame roedor
Já demonstra as intenções
Que tinha aquele senhor
Casava por interesse
Não casava por amor!”

Foi passando a sua dor
Pois nunca esteve sozinha
Feliz junto com amigos
E o dinheiro da caixinha?
Comprou fitas e mais fitas
Viva a dona Baratinha!

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Hortência!

Compartilho com vocês o meu livro Hortência, história de uma menina com nome de flor que tinha uma plantinha de estimação! Esse livro foi distribuído gratuitamente em um projeto realizado junto à Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura da Cidade do Recife. Agora deixo aqui o PDF pra quem quiser ter acesso! As ilustrações lindas , todas em aquarela, são de Juliana Barreto!

livro_hortencia_baixa-2.pdf

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Festa à Fantasia – Cordel carnavalesco para crianças!

Lapa de Urso - Murilo Silva

Lapa de Urso – Murilo Silva

Eu adoro Carnaval
Uma festa de alegria
De confetes, serpentina
Que a todos nós contagia
Onde a gente se transforma
Quando veste a fantasia!

Na semana da folia
Mamãe me pegou na mão
E me levou para o baile
Uma festa no salão
O local bem enfeitado
Muito brilho pelo chão

De toda a decoração
Eu gostei foi das fitinhas
Que pendiam lá do teto
Cortinas coloridinhas
E as máscaras tão bonitas
Bem que podiam ser minhas!

Com a roupa de bolinhas
Fiz valer o meu ingresso
Minhas asas e as antenas
Brilhavam sem muito excesso
Vestida de Joaninha
No desfile fiz sucesso!

Cruzei com outros insetos
Uma abelha bem faceira
Uma linda borboleta
Pequenina e feiticeira
Ainda um grilo falante
Que pulou a tarde inteira!

Eu estava na fileira
Pra comprar refrigerante
Foi aí que eu avistei
Algo muito interessante
Um tubarão foi cercado
Por uma dupla intrigante

Os dois eram integrantes
Da mesma família, irmãos
Um era um Marinheiro
Ou outro era o Capitão
Os dois brincavam de pega
Com o menino-tubarão

Levei um belo encontrão
De um palhaço atrapalhado
Quantos anos você tem?
Perguntou-me envergonhado
Tenho 7… eu respondi
E correu desembestado!!!

Levei um susto danado
Quando ouvi uma risada
Daquelas assustadoras
Mas fiquei aliviada…
Quando vi uma bruxinha
Que chegava pela entrada

Um príncipe de mão dadas
Mas não era com a princesa
E sim com a sua avó
Que o mimava, com certeza!
Não quis salvar seu ninguém
Fez birra e muita brabeza

Pois num é que vossa alteza
Principezinho emburrado
Só ficou mais sorridente
Quando chegou do seu lado
Um tipo super-herói
Com uniforme encarnado

Um papangu mascarado
Um gato e até um cachorro
Uma boneca de pano
Dançou que rasgou o forro
O clube inteiro dançava
Quando alguém gritou: Socorro!

Não sei se fico ou se corro…
O rebuliço formado
Parecia até mentira
Todo mundo estatelado
Quando se brinca de estátua
Que todos ficam parados!

E quem havia gritado
Não ficou pra explicar
A música estava parada
Todos a se entreolhar
Até que a fada madrinha
Resolveu, foi perguntar

Depois de muito explicar
Um menininho chorava
Com todo mundo ao redor
Somente a sunga ele usava
Soluçando, dava dó
De tão triste que ele estava

Aos prantos ele explicava
“Eu vim de Múmia vestido
Estava todo enfaixado
Fui no desfile aplaudido
Quando a pontinha da faixa
Se enganchou por um descuido..

Eu lá, dançando iludido
Comecei rodopiar
Fui ficando descoberto
A roupa a desenrolar
Quando então eu percebi
E comecei a gritar!

Fiquei tonto de girar
E agora não tem mais graça
Não tem festa, nem comida
Nada que me satisfaça
Já não tenho fantasia
Acabou-se, que desgraça!

Foi aí que uma palhaça
Quis emprestar-lhe o nariz
O menino agradeceu
Mas fez que não, e não quis
Explicou que treinou muito
Só de múmia era feliz

Foi aí que eu pensei “xis”!
Resolvi essa questão
Fui correndo ao sanitário
Peguei rolos de montão
Foi-se o papel higiênico
Do banheiro do salão!

Ele abriu um sorrisão
Começamos a enrolar
Ficou uma múmia perfeita
Prontinha para assustar
Recomeçamos a festa
Com todo mundo a dançar

A festa foi terminar
Mas eu nem vi seu final
Foi lá pras tantas da noite
Umas 10 horas e tal
Fui pra casa cochilando
No caminho fui sonhando
Com a tarde especial

É que adoro Carnaval!
Uma festa de alegria
De confetes, serpentinas
Que a todos nós contagia
Onde a gente se transforma
Quando veste a fantasia!

[por Mariane Bigio]

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Solução do Peixe-boi – Cordel cumulativo

Peixe-boi ( Imagem via Pixabay)

Peixe-boi ( Imagem via Pixabay)

Um enorme peixe-boi
Tirava um belo cochilo
Boiando acima no rio
Com seu semblante tranquilo
Quando algo aconteceu
E o seu corpo estremeceu
Vibrando quilo por quilo

E o quê que seria aquilo?
Espasmo desconfortável
Que atrapalhou a soneca
De forma tão lamentável
“Não sei se espirro ou se tusso
deve ter sido um soluço
que coisa desagradável”

E de fato era notável
A água reverberava
A cada soluço seu
Uma onda se formava
Os outros bichos então
Fizeram reunião
No rio que se agitava

Uma garça ali pousava
Buscando peixe ou minhoca
“Ouvi no rádio que toca
um doutor entrevistado
tem que comer um punhado
de farinha de mandioca!”

E farinha de mandioca
O peixe-boi deglutiu
Mas pra desespero seu
Nenhum efeito surtiu
Dali a alguns minutos
Novos espasmos abruptos
Outro soluço se ouviu

Um jacaré sugeriu
Até um tanto simpático:
“Aproveite meu amigo
que és um animal aquático
tome água em boas goladas
acabando a palhaçada
do soluço enigmático”

Peixe-boi bastante prático
Depois de comer farinha
Bebeu da água do rio
Que estava bem geladinha
Mas de nada adiantou
O soluço retornou
Para a mesma ladainha

Foi aí que uma tainha
Peixe bom na natação
Disse então que o peixe-boi
Prendesse a respiração
Pois a paz retornaria
O soluço passaria
De pronto, de supetão

Mais uma superstição
Tentativa de ajudar
Farinha seca na boca
Água pra ele tomar
Prendeu a respiração
Com muita sofreguidão
Sem que fosse adiantar

O sapo veio a coaxar…
“Põe na testa um algodão
os humanos fazem isso
já vi lá no casarão
quando fui por trás do monte
bebê com algodão na fronte
tem ciência a tradição”

Ah, mas que judiação!
Farinha e água na goela
Prendeu a respiração
Quase lhe trouxe sequela
E agora algodão na testa
E o soluço fez a festa
Permaneceu sem querela

Cobra-d’água com cautela
Deu uma dica pertinente
“Para curar seu soluço
faça como uma serpente
bote a língua bem pra fora
que o incômodo vai embora
e ficas bom novamente!”

E o coitado minha gente
A farinha devorou
Bebeu água, a pança cheia
Respiração que parou
Pôs na testa o algodão
Por fim abriu seu bocão
E a sua língua esticou

Um risinho se escutou
Que cena constrangedora!
Até que chegou à margem
A paca trabalhadora
Com outra dica maluca
“Dê três tapinhas na nuca!”
Disse em tom de professora

A bicharada doutora
Dava receitas sem tento
Ignorando o mamífero
Que afundava em sofrimento
E que agia por impulso
Pra se livrar do soluço
Sem esperança ou alento

Ao rito deu seguimento
Farinha, água, sem ar
E o tal algodão na testa
Mais uma vez esticar
A sua língua todinha
E ainda mais três tapinhas
Na nuca, pra completar

E nadica de passar
O seu soluço insistente
Foi quando saiu da toca
Um ratinho inteligente
“Se um elefante eu assusto
o peixe-boi tão robusto
se assustará certamente!”

Assim saltou prontamente
Com muita astúcia e presteza
Ao lado do peixe-boi
Em cima da baronesa
A planta d’água que assim
Lhe serviu de trampolim
Pra escapar da correnteza

Subiu cheio de certeza
Foi parar no cocuruto
Do coitado peixe-boi
Que mesmo tão grande e bruto
Se afligiu e sem segredo
Demonstrou todo o seu medo
Desespero absoluto

O soluço: resoluto!
Apesar da confusão
Não teve farinha ou água
Prender a respiração
Algodão, língua esticada
A nuca toda esfolada
Dos tapas sem precisão

Um susto foi solução
Que o peixe-boi precisou
Um ratinho, tão miúdo
Fez o que ninguém pensou
A cura às vezes mais plena
É tão simples l e pequena
Tal como a história ensinou

Por Mariane Bigio
Janeiro de 2020

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Casamento na Cozinha

Sal e Pimenta

Uma fome repentina
Me tomou de madrugada
Então eu fui à cozinha
Sonolenta e bem cansada
Pra comer, rapidamente
Inacreditavelmente
Lá me vi paralisada

Uma cena inusitada
Tomava todo o balcão
Um anúncio ao som do apito
Da panela de pressão
Dava início ao tal momento
Eis que era um casamento
Incrível celebração

Me escondi de supetão
Para não atrapalhar
O noivo, todo de branco
Esperava já no altar
Quando as taças, em coral
Soaram num tom cristal:
A noiva iria chegar!

Foi entrando a desfilar
Enquanto as frutas olhavam
Manteiga se derreteu
Legumes comemoravam
Vinagre e azeite juntinhos
Belo casal de padrinhos
Dos pombinhos se orgulhavam

– Eu vi quando namoravam,
Acompanhei desde cedo!
– Oh, não seja tão meloso!
O vinagre um tanto azedo
Repreendeu o azeite
Que suspirava em deleite
Romântico e sem segredo

Eu tava com um certo medo
De estar sonhando acordada
Mas era tudo tão mágico
Que me vi enfeitiçada
Dali não saí enfim
Assisti até o fim
A cerimônia encantada

A noiva estava arrumada
Com buquê de couve-flor
Com véu de papel toalha
O padre era um pegador
Daqueles de macarrão
Conduzindo a união
Com maestria e louvor

Foi aquele chororô
Com as alianças chegando
Feitas de anéis de cebola
E os noivos se declarando:
– Você dá tempero à vida!
– Te adoro minha querida!
E então foram se beijando!

Pegador finalizando
Declarou os dois casados
Foi chuva de arroz pra cima
Pra baixo e tudo que é lado
Casaram o Sal e a Pimenta
Coisa que a cabeça inventa
Em um sonho esfomeado!

por Mariane Bigio – Janeiro 2020

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Os três irmãos – Um conto de Natal

Papai Noel - Por Murilo Silva

Papai Noel – Por Murilo Silva

Por Mariane Bigio

Era dezembro e os três irmãos estavam animados. Haviam sido alertados sobre a tradição de pendurar suas meias sob o parapeito da janela, e ainda sobre as cartinhas com os pedidos de presentes de natal, que deveriam ser escritas com antecedência, para que o Papai Noel trouxesse exatamente o que gostariam de receber naquele ano. Um ano que passara voando, e o mês, cheio de festas e confraternizações, pareceu curto para tantos preparativos. A véspera de Natal chegara, e os três se ocuparam entre afazeres na cozinha, brincadeiras, faxina na casa, brincadeiras, beliscos nos quitutes da ceia e mais brincadeiras. A casa era simples e os irmãos ajudavam a família com cada detalhe da festa que começaria a qualquer momento.
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Tudo foi perfeito, divertido, e a comida estava deliciosa! Depois da sobremesa, o mais velho lembrou-se das meias, caramba! Todas as minhas meias estão sujas, e mamãe não quer que eu fique sem sapatos enquanto a vovó estiver por perto! O irmão do meio também não havia separado meia alguma, tampouco a caçula havia guardado um meia cheirosa e limpa para receber o bom velhinho. Os três foram ao cesto de roupas sujas e retiraram suas meias usadas de lá. Antes que os pais percebessem, fizeram um pequeno varal logo abaixo da janela, com as três meias penduradas. Depois das cantigas e jogos, os três adormeceram num colchão entre os primos e primas, em um outro cômodo da casa. As meias estavam penduradas, mas eles não haviam escrito sequer bilhetes para sinalizar ao Papai Noel sobre seus desejos. E agora?
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A casa dormia enquanto a coruja piava do lado de fora. O trenó estacionou nos fundos da casa, e o velhinho limpou o solado das botas sujas de terra no capacho em frente à porta. Demorou-se um pouco, até que se voltou, apreensivo, cochichando ao seu duende assistente: esta é a casa dos três irmãos! Foram eles que não escreveram nada sobre o queriam ganhar de presente. Querem que o bom velhinho faça mágica para descobrir! O duende respondeu: mas não é isso mesmo que o senhor faz? E os dois riram juntos, aos sussurros, com medo de serem ouvidos. Ao passar pela porta da cozinha Papai Noel avistou as tais meias dos pequenos. No caminho depositou, próximo à árvore de natal, os pacotes destinados aos pais, primos, avós, tios e tias das crianças. Todos já estavam prontinhos no saco mágico do bom velhinho. Papai Noel coçou a barba e o Duende se aproximou das meias, até cheirá-las…. plah! Estão sujas! Que horror! Noel deu um risinho contido, de boca fechada, tinham que ser silenciosos para que ninguém acordasse. O Duende assistente sacudiu no ar a meia do irmão mais velho…. uma meia comprida, devia chegar até o joelho do menino. Estava suada, com um chulézinho discreto e salpicada de grama verde. Hummm… o Papai Noel corrigiu sua postura e pigarreou. Disse algumas palavras magicas. O duende tirou de dentro do saco um pacote redondo que deixou abaixo daquela primeira meia. A meia do irmão do meio estava mais fedorenta… o Duende olhou dentro dela e teve que prender o espirro: está cheia de areia branca, e bem fininha. Veja! Também tem um conchinha aqui dentro. Hummm, muito bom, disse Papai Noel. Falou novamente as palavras mágicas e um outro pacote estava prontinho, saído do grande saco vermelho. Este ficou abaixo da meia que estava no centro. A última meia era muito fofinha, cheia de desenhos coloridos, uma bainha de arco-íris, e era a menorzinha das três, parecia limpa, mas…. credo! Que fedor! Esta é a pior de todas, Noel! O velhinho prontamente respondeu: prova de que a menina é espoleta, corre e pula tanto quanto os irmãos! Ao balançar a meia o duende teve um susto: um pó brilhante saiu de lá de dentro… não é possível! Pó mágico na meia de uma criança humana? Calma, calma, isto é o que eles chamam de glíter, pequenino. Também é uma ótima pista, junto com os desenhos da meia, o arco-íris na bainha…. talvez um chulé de quem gosta de usar botas ou galochas para brincar…. hum… é isso! O velhinho disse outras palavras mágicas e o Duende precisou se esforçar para retirar o pacote grande e pesado de dentro do saco vermelho. Deixou-o bem abaixo da meia pequenina. Ufa! Terminamos por aqui! Disse o assistente. O Papai Noel e o Duende deixaram a casa satisfeitos, e dentro de poucas horas o dia amanheceu.
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As crianças deixaram o quarto esbaforidas e atropelaram os primos que tentavam encontrar seus presentes ao redor da árvore. Eles foram diretamente ao local das meias, e cada um pegou o presente que lhe estava designado. Ao abrir, os olhos dos três brilharam de satisfação! Viva! Isso! Eba! Era exatamente o que eu queria! O irmão mais velho ganhou uma belíssima bola de futebol, para jogar no campinho onde costumava sujar suas meias de grama verdinha. O irmão do meio se deleitou com o trator, pás e balde que ganhara para brincar na areia branca e fininha, da praia em que passeava no final da tarde, depois da escola. Às vezes tinha tanta pressa de brincar que pulava na praia de tênis e meia, e até gostava de catar conchinhas e guardar nas meias para colecionar depois. A irmã mais nova, a pequenina espoleta, vibrou com o seu unicórnio de madeira, crina cor de arco-íris e chifre salpicado de purpurina dourada! Vou cavalgar com minhas galochas, ihaaaa! Do lado de fora da casa o Duende se esgueirava entre os arbustos, assistindo à cena pela janela. Na sua prancheta desenhou uma carinha sorridente ao lado do endereço dos três irmãos e sumiu, logo depois, em meio a uma fumaça branca e pó mágico, pois precisava apresentar o “Relatório da Alegria” ao Papai Noel.

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Mariazinha e a Comadre Fulorzinha

Mariazinha e a Comadre Fulorzinha

CORDEL MARIAZINHA E A COMADRE FULORZINHA - ILUSTRAÇÃO: MURILO SILVA

CORDEL MARIAZINHA E A COMADRE FULORZINHA – ILUSTRAÇÃO: MURILO SILVA

Meu nome é Ana Maria

mas chamam Mariazinha

eu vou contar uma história

ouvi de uma tia minha

ela me disse que um dia

viu Comadre Fulorzinha!

 

Eu então lhe perguntei:

– Quem é essa Fulorzinha?

que eu saiba, minha tia

sua comadre é mainha!

Ela deu uma risada

disse: – Ô minha sobrinha!

 

– Essa comadre que eu falo

vive no meio da mata

protegendo os animais

punindo quem os maltrata

quem explora a natureza

de maneira tão ingrata!

 

– Ela tem cabelos longos

que vão além da cintura

é uma linda caboclinha

na mata se desfigura

só aparece de noite

tenebrosa criatura!

 

Ao escutar a história

eu senti enorme medo

a noite estava chegando

já não era mais tão cedo!

foi então que minha tia

me contou o seu segredo:

 

– Não se preocupe não!

ela não lhe fará mal

apenas nunca maltrate

nem planta, nem animal

se for andar na floresta

é bom levar um mingau!

 

– Mas tia, não tenho fome!

– Mas não é para comer,

querida Mariazinha!

você deve oferecer

o fumo, mel ou mingau

que ela vai agradecer…

 

– A Fulorzinha aprecia

sempre que é presenteada

e ajuda até quem se perde

dentro da mata fechada

ela pode ser bondosa

se não for contrariada!

 

Eu lembrei que muita gente

dessa nossa região

gosta de fazer queimada

pra colher a plantação

e perguntei a titia

o que aconteceria

se houvesse degradação

 

Ela disse muito firme:

– Se a natureza sofrer

a Comadre Fulorzinha

logo vai aparecer

sinal de sua presença

é o que eu vou te dizer…

 

– Ela gosta de fazer

trança em crina de cavalo!

faz um nó cego danado

impossível desmanchá-lo

se tentar tirar o nó

os dedos enchem de calo!

 

– Tem que ter muito cuidado

se um assobio ouvir

se for som muito longo

Fulorzinha está por vir

mas só precisa ter medo

se à natureza agredir

 

– Pois se alguém se aventurar

de caçar por diversão

levará uma cipoada

mais forte que cinturão

nem precisa procurar

pois jamais vai encontrar

d’onde veio o bofetão!

 

– Já entendi, minha tia!

já vem chegando a noitinha,

vou levar esse mingau

e seguir a minha linha

amanhã digo se vir

a Comadre Fulorzinha!

 

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A Iara e a preservação do rio

Sereia - Murilo Silva

Sereia – Murilo Silva

(por Mariane Bigio)

 

Encontrei uma mocinha

Que limpava com capricho

As margens de um grande Rio

Retirando todo o lixo

Que podia alcançar

Ela quis me confessar

Me contando num cochicho

 

Não conheço nem um bicho

Capaz de tão vil proeza

De sujar e degradar

Destruindo a Natureza

Só o homem faz este mal

Não percebe que ao final

É quem perde, com certeza!

 

Sua voz, uma beleza

Tão sonora e encantada

E as palavras que dissera

Me deixaram preocupada

Eu decidi ajudar

Pra que se possa espalhar

A mensagem que foi dada

 

A tal mocinha engajada

Sumiu como num piscar

Eu nem perguntei seu nome!

Vi no rio a mergulhar

Como um peixe que passeia

Uma Cauda de Sereia

E mal pude a acreditar

 

Era ela a acenar

nadando qual capivara

no rio Capibaribe

uma aparição tão rara

nos deixou esta lição

cuidem da preservação

Assim como a bela Iara!

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