O pequeno espantalho e a boneca de pano

Vi mocinha, não me esqueço
Papai voltando da roça
Com as espigas furadas
Pendendo de uma carroça
– Ái que essa passarada
tá comilona e danada
e assim não há quem possa!


Ele exclamou: – Minha Nossa!
quase que não sobra nada!
bicaram meu milharal
partiram em revoada
valei-me meu São João
vou mudar a plantação
pro outro lado da estrada!

E eu fiquei preocupada
Me vi querendo ajudar
Foi quando tive uma ideia
Fui depressa executar
Fui fazer um espantalho
Com palha, tecido e galho
Estopa pra completar

Antes de finalizar
Já fiquei desanimada
– Um boneco assim, pequeno
não vai servir para nada!

Meu irmão disse, bem chato
Mas o seu dito era um fato
E ouvindo fiquei calada

Terminei minha empreitada
Fiz a boca com a linha
Coloquei um chapéuzinho
Decorado com florzinha
Uma camisa xadrez
Imaginem só, vocês
Que coisa mais bonitinha!

Pois pra roça ele não foi
Não teria serventia
Olhei pra ele tristonha
Deu trabalho, quem diria
Não queria botar fora
Foi aí, que nessa hora
Ouvi uma gritaria…

– Não joga fora, Maria!
Minha priminha berrava.
– Esse bonequinho lindo!
A pequena se agitava
– Pra ele eu já tenho um plano
minha Boneca de Pano
há muito um par precisava

E a bonequinha trajava
Um belo laço de fita
Um vestidinho estampado
Todo feito com a chita
Com coração de algodão
Fora costurada à mão
Era simples e bonita

E a pequena disse aflita:
– Nunca achei um par decente
os bonecos dos heróis
não servem pra pretendente
não são nada maleáveis
fortalhões irresponsáveis
rijos excessivamente

e não acho pertinente
os bonecos de sucata
costumam enferrujar
se forem feitos de lata
reciclados noutra peça
pra brincar é bom à beça
mas preciso ser sensata


minha boneca é a nata
de um antiga tradição
foi feita por nossa avó
preciso ter atenção
esse espantalho é perfeito
pois vejo, que pelo jeito
foi feito com o coração


você pôs dedicação
produziu com maestria
pensou que esse miudinho
a colheita salvaria
foi nobre a sua intenção
e peço a sua benção
pr’essa união de alegria!

Foi assim, naquele dia
Que um ofício conheci:
Eu me formei bonequeira!
Nunca mais eu esqueci
Do espantalho pequeno
Com seu semblante sereno
Que com carinho cerzi

Não acaba por aqui
Pois também sou costureira
Fiz o véuzinho de noiva
Da bonequinha faceira
Que era feita de pano
Depois que passou um ano
Minha fama foi certeira

E assim a cidade inteira
Me encomendava vestidos
Casei bonecas e gente
Cortei panos bem cumpridos
Fui tecendo a minha lida
E hoje sou feliz da vida
E ainda atendo pedidos

Meus primos todos crescidos
Brinquedos encaixotados
Mas a boneca de pano
E o espantalho adorado
Minha prima pôs no altar
Pra gente sempre lembrar:
O amor é um lindo bordado! 

Mari Bigio, Março de 2025
 


Para casar com o texto ouça a canção “A Moda da Boneca de Pano”, de Mari Bigio:

https://www.youtube.com/watch?v=MEtxuYLQtGI


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About Mariane Bigio

Poeta e Videasta. Eu faço versos como quem chora, ama, brinca, ri.... Eu faço versos como que vive.
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1 Response to O pequeno espantalho e a boneca de pano

  1. Avatar de Franci Palhano Franci Palhano disse:

    Que texto lindo, querida. Maravilhoso. Tão bom te ler, te ver, dançar com você. Deus te proteja e te faça sempre essa luz que alumeia tantos caminhos. Cheiro

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