A Morte e O Avarento – Um Conto da Morte em Cordel

A Morte – por Murilo Silva

No sertão de Pernambuco

Corre a história do dia

Em que a Morte fez sucesso

Por ganhar na loteria

Ficou rica e milionária

A tal dama tão sombria

.

Um senhor muito avarento

Fez fortuna e não casou

“Pra gastar o meu dinheiro?

Nem na Igreja eu num vou?

Festa e vestido de noiva?

Deus me livre que num dou!”

.

E assim, não teve filhos

Nem bicho de estimação

“Eu que não gasto vintém

comprando angu e ração!

Eu não quero papagaio

não quero gato e nem cão!”

.

Também não quis amizades

Com medo de interesseiros

“Eu sei bem que esses “amigos”

só pensam no meu dinheiro!”

E assim ficou solitário

Sozinho no mundo inteiro

.

Virou as costas pra fé

Que é pra não gastar com vela

Pra não gastar energia

Nem assistia novela!

Não tinha prato nem copo

Comia numa tigela!

.

Descalço pra todo canto

Que é pra não gastar a sola

Não dava ajuda a ninguém

“Eu não sou de dar esmola!”

Não tinha bolsa nem mala

Andava com um sacola

.

Nem mesmo tinha carteira

Nem tinha conta no banco

Dizem que escondia o ouro

No solado de um tamanco

E o povo todo cantava

Num refrão de mote franco…

.

O Cabra nem se importava

Com a riqueza enrustida

Enchendo bucho de água

Pois mal comprava comida

Até que chegou a noite

Derradeira em sua vida

.

A Morte bateu à porta

Mas ele não atendeu

“Eu que não abro, não!

Maçaneta encareceu

se me solta um parafuso

prejudicado sou eu!”

.

A morte pede licença

Pois só pode entrar assim

É uma dama educada

Que só traz notícia ruim

Pôs a cara na janela

Pra ser atendida enfim

.

“Deus me livre, coisa ruim!

Vai de retro, indesejada!”

O mesquinho então gritou

Com a voz amedrontada

“Não devo nada a ninguém

nem ninguém me deve nada!”

.

A morte ficou estanque

Coisa de se admirar

Era ninguém dever nada

Nem ter nada para cobrar

E assim, a Caetana

Logo pôde averiguar

.

“O senhor deve ser pobre

é que o posso imaginar

essa casa é muito boa,

isso é possível notar

mas pergunto, onde é que sentas

sem cadeira e nem sofá?”

.

“Sento no chão, minha cara

tapete é pra ostentar”

A Morte  o entrevistou

“E a cama pra se deitar?”

“É uma esteira bem gasta

com jornal para forrar”

.

Depois de muito indagar

Descobriu toda verdade

“Avarento, mão-de-vaca

manicurto e sem vontade!

Vou é te levar agora

não importa a sua idade!”

.

A Foice levou homem

Sem ter ninguém pra velar

O que se leva da vida

É a vida que se levar

Não resta nada pra quem

Nunca soube o que é amar

.

A casa foi vasculhada

Mas o dinheiro sumiu

O tamanco, tão famoso,

Ninguém sabe, ninguém viu

Mas A Morte em sua folga

Uma assombração sentiu

.

O fantasma do avarento

Apareceu em um sonho

Arrependido ele estava

Por ser pão-duro e tacanho

Falou pra Morte onde estava

A fortuna sem tamanho

.

A Morte foi, caladinha

Para o local revelado

Fez da sua foice pá

No terreno acidentado

Que ficava atrás da casa

Do falecido amarrado

.

Lá encontrou a botija

Cheia de ouro e dinheiro

E uma caixa de sapato

Embrulhada por inteiro

E dentro o par de tamancos

Desses de assentar terreiro

.

A Morte ficou ricaça

E resolveu viajar

Saiu de férias uns dias

Fez farra pra festejar

Deu a volta pelo mundo

Em jato particular

.

Comprou mansão com piscina

E um castelo de rainha

Foi caviar com champanhe

Enchendo a sua pancinha

Comprou moto e jetsky

E uma Ferrari novinha

.

Emprestou e apostou

Passou cheque em doação

Comprou cavalo e fazenda

Obra de arte em leilão

Gastou cada um centavo

Até não sobrar tostão

.

Ao cabo de uma semana

Ao serviço retornava

Tendo gasto a tal fortuna

Pois ela nada poupava

Voltou toda sorridente

Todo mundo perguntava

.

“Fiquei rica e já gastei

e assim volto à minha lida

o destino do avarento

é a pena mais sofrida

pois sua herdeira é A Morte

eis a certeza da vida!”

.

Avarento moribundo

Sabe quando vai morrer

A Morte chega sambando

Pro cabra reconhecer

Vem batucando o tamanco

Pra todo mundo saber!

.

Por Mari Bigio, Janeiro de 2021.

Sobre Mariane Bigio

Poeta e Videasta. Eu faço versos como quem chora, ama, brinca, ri.... Eu faço versos como que vive.
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